Esdras Dantas de Souza: Ser conhecido é diferente de ser respeitado

Existem advogados que entram numa sala e quase todos sabem quem são.

Seus nomes circulam.

Possuem muitos seguidores.

Participam de eventos.

Aparecem em fotografias.

Publicam constantemente.

São convidados.

Comentados.

Reconhecidos.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos:

essas pessoas são conhecidas ou são respeitadas?

As duas coisas podem caminhar juntas.

E quando caminham, formam uma combinação poderosa.

Mas não são a mesma coisa.

É possível ser conhecido e profundamente respeitado.

É possível ser respeitado por muita gente sem ser amplamente conhecido.

E também é possível possuir enorme visibilidade sem ter construído confiança correspondente.

Essa diferença merece atenção de qualquer profissional preocupado em construir uma carreira duradoura.

Porque ser conhecido depende de as pessoas saberem quem você é. Ser respeitado depende das razões pelas quais elas se lembram de você.

A visibilidade pode chegar rapidamente

Nunca foi tão possível tornar-se conhecido.

Um vídeo alcança milhares de pessoas.

Uma publicação viraliza.

Uma entrevista circula.

Uma controvérsia produz atenção.

Um acontecimento coloca determinado nome em evidência.

As redes sociais diminuíram a distância entre desconhecimento e notoriedade.

Isso possui aspectos positivos.

Profissionais competentes que antes dependiam de círculos restritos hoje conseguem compartilhar conhecimento diretamente com muitas pessoas.

Um jovem advogado pode publicar uma excelente análise e ser lido em todo o país.

Um professor pode ensinar sem depender de uma sala de aula física.

Um profissional de uma pequena cidade pode dialogar com colegas do outro lado do mundo.

É extraordinário.

Mas existe um detalhe:

a tecnologia acelerou a possibilidade de ser conhecido. Não acelerou, na mesma proporção, a construção do respeito.

Respeito continua exigindo tempo.

Atenção pode ser conquistada. Confiança precisa ser construída.

Imagine que você assista hoje a um vídeo excelente de um advogado que nunca conheceu.

Você pode admirá-lo.

Pode segui-lo.

Pode compartilhar o conteúdo.

Mas entregaria imediatamente a ele um problema que envolve sua família, seu patrimônio, sua liberdade ou sua empresa?

Talvez não.

Porque atenção é uma primeira aproximação.

Confiança é outra etapa.

Para confiar, buscamos sinais.

Conhecimento.

Coerência.

Experiência.

Comportamento.

Reputação.

Indicações.

Histórico.

Responsabilidade.

A confiança cresce quando aquilo que a pessoa demonstra repetidamente confirma aquilo que inicialmente parecia ser.

Visibilidade pode abrir a porta. Confiança decide se alguém entra.

Respeito não pode ser exigido

Há profissionais muito preocupados com títulos.

Doutor.

Professor.

Presidente.

Diretor.

Conselheiro.

Autor.

Palestrante.

Especialista, quando juridicamente e profissionalmente cabível utilizar a denominação.

Títulos podem ser legítimos e importantes.

Representam formação, função, trajetória ou responsabilidade.

Mas existe um título que ninguém consegue atribuir a si mesmo:

“profissional respeitado.”

Esse reconhecimento pertence aos outros.

Você pode apresentar sua formação.

Pode informar os cargos que ocupa.

Pode divulgar sua experiência.

Mas não pode obrigar alguém a respeitá-lo.

Respeito nasce daquilo que as pessoas observam.

Cargo pode ser concedido. Título pode ser conquistado. Respeito precisa ser reconhecido.

O currículo diz onde você esteve. O comportamento mostra quem você é.

Um currículo impressionante pode abrir portas.

Mas depois que a porta se abre, começa outra avaliação.

Como você trata as pessoas?

Como reage quando contrariado?

Cumpre a palavra?

Sabe ouvir?

É pontual?

Reconhece o trabalho dos outros?

Consegue discordar sem humilhar?

Como se comporta diante de quem possui mais poder?

E diante de quem possui menos?

Como reage quando perde?

Como age quando vence?

O comportamento diário confirma ou contradiz o currículo.

Por isso, existem profissionais com enorme quantidade de títulos que não produzem confiança.

E existem outros cuja presença inspira respeito antes mesmo de apresentarem suas credenciais.

A diferença está frequentemente na coerência entre aquilo que representam e a maneira como vivem.

Conhecimento sem humildade pode afastar

É admirável encontrar alguém que sabe muito.

Mas existe algo ainda mais admirável:

encontrar alguém que sabe muito e não precisa fazer os outros se sentirem pequenos para demonstrar isso.

O verdadeiro conhecimento costuma produzir consciência dos próprios limites.

Quem estuda profundamente sabe quantas perguntas ainda existem.

Por isso, algumas das pessoas mais competentes que conhecemos conseguem dizer com tranquilidade:

“Não sei.”

“Preciso verificar.”

“Posso estar errado.”

“Esse assunto não é minha área.”

“Vou estudar antes de responder.”

Essas frases não diminuem autoridade.

Quando ditas com honestidade, podem aumentá-la.

A arrogância tenta provar conhecimento. A autoridade tranquila não precisa fazê-lo o tempo inteiro.

Respeito aparece principalmente na divergência

É fácil parecer equilibrado quando todos concordam conosco.

O teste acontece quando alguém diz:

“Eu discordo.”

O que fazemos?

Atacamos?

Ironizamos?

Desqualificamos?

Tentamos humilhar?

Transformamos uma divergência técnica em conflito pessoal?

Ou apresentamos argumentos?

Escutamos?

Respondemos?

Reconhecemos quando o outro possui razão?

Na advocacia, discordar faz parte da profissão.

Advogados defendem interesses diferentes.

Interpretam normas de maneira distinta.

Sustentam teses opostas.

Isso não deveria transformar adversários processuais em inimigos pessoais.

Podemos combater uma tese com toda a firmeza sem combater a dignidade de quem a sustenta.

O profissional respeitado aprende essa diferença.

A forma como você exerce poder revela muito

Ao longo da carreira, talvez chegue o momento de liderar.

Um escritório.

Uma equipe.

Uma comissão.

Uma associação.

Uma instituição.

Nesse instante, algo muda.

Pessoas passam a depender de decisões suas.

E poder, mesmo pequeno, revela muito sobre nós.

Há quem se torne mais arrogante.

Há quem passe a exigir deferências.

Há quem confunda liderança com obediência.

Mas existe outra possibilidade.

Usar a posição para abrir portas.

Formar pessoas.

Compartilhar oportunidades.

Ouvir.

Reconhecer talentos.

Corrigir sem humilhar.

Dar crédito.

Servir.

O respeito que nasce do medo dura enquanto dura o poder. O respeito que nasce da liderança pode permanecer quando o cargo já terminou.

Essa é uma diferença que todo líder deveria compreender.

Quem precisa lembrar constantemente o próprio cargo talvez ainda não tenha construído autoridade suficiente

Em determinadas situações, informar uma função é necessário.

Faz parte da apresentação institucional.

O problema é quando o cargo passa a ser argumento permanente.

“Você sabe quem eu sou?”

“Eu sou presidente.”

“Eu sou diretor.”

“Eu sou professor.”

“Eu tenho tantos anos de profissão.”

A experiência merece respeito.

As funções merecem o tratamento institucional adequado.

Mas autoridade verdadeira raramente precisa ser lembrada a cada conversa.

Ela aparece na postura.

Na segurança.

Na maneira de decidir.

Na capacidade de ouvir.

Na forma de tratar as pessoas.

Quanto mais sólida a autoridade, menor costuma ser a necessidade de anunciá-la.

Respeito também nasce da capacidade de dizer não

Quem tenta agradar a todos pode tornar-se conhecido como uma pessoa agradável.

Mas nem sempre será respeitado.

Existem momentos em que precisamos dizer:

Não.

Não posso aceitar essa causa.

Não concordo com essa conduta.

Não posso prometer esse resultado.

Não farei isso.

Não considero adequado.

Não tenho conhecimento suficiente para assumir esse trabalho.

Não participarei.

Essas decisões podem custar oportunidades.

Às vezes, até relações.

Mas também definem limites.

Respeito não nasce apenas das portas que conseguimos abrir. Também nasce das portas pelas quais decidimos não entrar.

A maneira como você trata o sucesso importa

O sucesso também é um teste.

Quando ninguém nos conhece, desejamos oportunidades.

Quando elas chegam, surge outro desafio:

não esquecer como éramos antes delas.

Alguns profissionais mudam quando começam a ser reconhecidos.

Tornam-se inacessíveis.

Deixam de responder.

Passam a tratar antigos colegas de maneira diferente.

Selecionam amizades pela utilidade.

Começam a acreditar que reconhecimento significa superioridade.

É uma armadilha.

Quanto maior a carreira, maior deveria ser nossa capacidade de compreender que ninguém chega sozinho.

Professores ensinaram.

Colegas indicaram.

Clientes confiaram.

Funcionários ajudaram.

Amigos apoiaram.

Famílias suportaram ausências.

Pessoas abriram portas.

Gratidão é uma forma de inteligência sobre a própria trajetória.

Ser respeitado não significa ser amado por todos

Isso precisa ficar claro.

Um profissional respeitado também receberá críticas.

Será contestado.

Tomará decisões impopulares.

Recusará pedidos.

Perderá clientes.

Desagradará pessoas.

Ninguém constrói uma trajetória relevante tentando obter unanimidade.

Respeito não significa ausência de oposição.

Significa construir coerência suficiente para que até quem discorda possa reconhecer alguma coisa em você.

Seriedade.

Preparo.

Lealdade.

Coragem.

Educação.

Coerência.

Não busque ser unanimidade. Busque ser digno de confiança.

Não transforme visibilidade em vaidade

A atenção possui um efeito curioso.

Quando recebemos reconhecimento, queremos mais.

Mais seguidores.

Mais convites.

Mais aplausos.

Mais fotografias.

Mais elogios.

Mais exposição.

Sem perceber, podemos deixar de trabalhar para construir algo e começar a trabalhar para sermos vistos construindo.

Essa inversão é perigosa.

O advogado deixa de perguntar:

“Isso é útil?”

e começa a perguntar:

“Isso vai aparecer?”

Deixa de perguntar:

“Posso contribuir?”

e passa a perguntar:

“Qual será meu destaque?”

Nesse momento, a visibilidade deixa de ser consequência do trabalho e passa a comandá-lo.

Quando a necessidade de aparecer se torna maior do que a vontade de contribuir, alguma coisa saiu do lugar.

Faça coisas importantes que talvez ninguém veja

Uma excelente maneira de proteger-se da vaidade é continuar fazendo coisas que não produzem aplausos.

Ajudar alguém sem publicar.

Orientar um jovem colega sem contar.

Indicar um profissional sem esperar retorno.

Ler um livro que ninguém saberá que você leu.

Preparar-se melhor para uma pequena reunião.

Responder com atenção a quem não possui influência.

Cumprir uma promessa que ninguém fiscalizará.

Essas atitudes possuem enorme valor.

Porque lembram algo fundamental:

nem tudo aquilo que vale a pena precisa virar conteúdo.

Existe uma vida profissional que acontece fora das câmeras.

E talvez seja justamente nela que o caráter seja mais claramente construído.

O respeito verdadeiro atravessa o tempo

Popularidade possui ciclos.

As plataformas mudam.

Os algoritmos mudam.

As pessoas em evidência mudam.

Os cargos terminam.

As manchetes desaparecem.

Novos profissionais surgem.

Mas existem nomes que continuam sendo pronunciados com respeito décadas depois.

Por quê?

Não apenas porque foram conhecidos.

Mas porque deixaram alguma coisa.

Conhecimento.

Instituições.

Livros.

Decisões.

Exemplos.

Pessoas que formaram.

Oportunidades que criaram.

Relações que preservaram.

Princípios que sustentaram.

Fama depende muito da memória pública. Respeito pode permanecer na memória das pessoas cuja vida tocamos.

Qual reputação você está construindo?

Talvez seja útil fazer algumas perguntas.

Quero ser conhecido por quê?

O que as pessoas associam ao meu nome?

Minha visibilidade é maior, menor ou compatível com minha competência?

Estou investindo mais em parecer autoridade ou em tornar-me realmente competente?

Como trato pessoas que não podem me oferecer nada?

Como reajo quando sou contrariado?

Como exerço os pequenos poderes que possuo?

Minha presença nas redes corresponde à pessoa que sou fora delas?

Estou construindo relações ou apenas audiência?

Se todos os meus cargos terminassem amanhã, o que permaneceria?

A última pergunta talvez seja a mais importante.

Porque cargos terminam.

Mandatos terminam.

Eventos terminam.

Aplausos terminam.

A carreira também terminará um dia.

O que permanece é aquilo que construímos nas pessoas, nas instituições e no nome que deixamos.

Não queira apenas que saibam quem você é

Não existe nada errado em desejar reconhecimento profissional.

Um bom advogado deve poder mostrar seu trabalho.

Compartilhar conhecimento.

Construir autoridade.

Ser procurado.

Receber oportunidades.

Prosperar.

O problema começa quando confundimos atenção com valor.

Ser conhecido pode abrir portas.

Mas ser respeitado faz com que as pessoas desejem mantê-las abertas.

Ser conhecido pode gerar convites.

Ser respeitado gera confiança.

Ser conhecido pode produzir audiência.

Ser respeitado produz influência verdadeira.

Ser conhecido pode acontecer rapidamente.

Ser respeitado exige repetição.

Tempo.

Coerência.

Conhecimento.

Caráter.

Serviço.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para uma carreira não seja:

“Quantas pessoas conhecem meu nome?”

Mas:

“O que meu nome significa para as pessoas que o conhecem?”

Se ele significar competência, confiança, respeito, equilíbrio, palavra, lealdade e contribuição, talvez você tenha construído algo muito maior do que visibilidade.

Construiu um nome.

E chegará um momento em que os cargos estarão no passado, as fotografias terão envelhecido e as redes sociais talvez nem sejam as mesmas.

Nesse dia, restará uma pergunta simples:

quando mencionarem seu nome, o que as pessoas sentirão que ele representa?

Talvez essa seja uma medida muito mais importante de sucesso do que simplesmente descobrir quantas pessoas sabem quem você é.

Esdras Dantas de Souza
Advogado e professor
Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)
Ex-Presidente da OAB/DF
Ex-Conselheiro Federal e ex-Diretor do Conselho Federal da OAB

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