Política sem fanatismo: quando a paixão cega custa caro ao cidadão

O Brasil é um país de paixões intensas. Isso não é novidade. A política, especialmente nos últimos anos, deixou de ser apenas debate público para se tornar identidade pessoal, torcida organizada, motivo de brigas familiares e combustível para conflitos nas redes sociais.

Mas é preciso fazer uma pergunta incômoda — e madura: vale a pena transformar político em ídolo?

A democracia pressupõe participação, fiscalização e debate. Ela não exige idolatria. O voto é instrumento de escolha, não de devoção. Quando o cidadão deixa de avaliar propostas e passa a defender pessoas como se fossem infalíveis, algo se desvirtua no processo democrático.

Não é raro observar histórias de amizades rompidas, casamentos abalados, relações profissionais prejudicadas por discussões políticas inflamadas. Em alguns casos, a militância radical consome tempo, energia e saúde emocional. Pessoas deixam de produzir, de estudar, de cuidar da própria vida para travar batalhas digitais por figuras públicas que, muitas vezes, sequer sabem que elas existem.

A política institucional brasileira, por sua própria dinâmica, é marcada por negociações complexas, alianças circunstanciais e disputas de poder. O funcionamento do Congresso Nacional — formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal — envolve interesses regionais, partidários e estratégicos que nem sempre coincidem com a expectativa idealizada do eleitor.

Isso não significa que o sistema seja inútil ou que a política deva ser abandonada. Significa apenas que ela é mais complexa do que discursos simplificados sugerem.

O cidadão comum raramente muda sua realidade levantando bandeiras incondicionais. Quem depende diretamente de cargos públicos, funções comissionadas ou articulações partidárias pode ter incentivos específicos para defender este ou aquele grupo político. Fora desses casos, o ganho concreto costuma ser limitado — enquanto os custos emocionais e sociais podem ser elevados.

Outro ponto essencial: político não é herói, nem inimigo absoluto. É agente público temporário. Deve ser cobrado, fiscalizado e avaliado com critérios racionais. A substituição da análise crítica pela defesa cega empobrece o debate e fortalece exatamente aquilo que se critica: a falta de responsabilidade pública.

Há ainda um risco adicional: quando a militância ultrapassa os limites legais, pode trazer consequências jurídicas sérias. A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não é sinônimo de licença para agressões, ameaças ou desinformação.

O Brasil não será transformado por brigas em grupos de mensagens ou por ataques nas redes sociais. Mudanças estruturais exigem educação política, participação consciente, organização social e cobrança permanente — independentemente de quem esteja no poder.

Talvez o caminho mais produtivo seja outro: investir na própria formação, fortalecer a família, cuidar da saúde mental, construir estabilidade profissional e exercer cidadania com equilíbrio. A política deve ocupar um espaço importante na vida pública, mas não dominar a vida privada.

O país precisa de cidadãos lúcidos, não de torcidas organizadas.

Participar, sim. Fiscalizar, sempre. Idolatrar, jamais.

Todos os direitos reservados © 2024. Ordem Democrática. Desenvolvido por www.mindsetmkd.com.br