O que a advocacia me ensinou sobre amizade

Por Esdras Dantas de Souza —

A advocacia me ensinou muitas coisas que não estavam nos livros. Uma delas, talvez uma das mais importantes, é o valor da amizade.

Ao longo de uma vida profissional, milhares de pessoas cruzam o nosso caminho. São colegas, clientes, magistrados, membros do Ministério Público, servidores, professores, alunos e tantos outros profissionais. Alguns encontros são passageiros. Outros atravessam os anos e acabam fazendo parte da nossa própria história.

Com o tempo, compreendi que uma carreira verdadeiramente próspera não pode ser medida apenas pelos processos que vencemos, pelos honorários que recebemos ou pelos cargos que ocupamos.

Precisamos olhar também para as pessoas que ficaram.

A advocacia poderia facilmente transformar colegas em adversários. Disputamos clientes, posições, oportunidades e reconhecimento. Mas a experiência me ensinou que não precisamos construir nossa trajetória dessa maneira.

Sempre procurei seguir um princípio que considero importante: transformar rivais em companheiros, companheiros em amigos e amigos em pessoas queridas.

Isso não significa concordar com todos ou confiar indistintamente em todas as pessoas. A própria vida nos ensina a reconhecer decepções, interesses e até relações que existem somente enquanto temos alguma utilidade.

Mas essas experiências não deveriam nos transformar em pessoas amargas. Deveriam nos tornar mais sábios.

As amizades que resistem ao tempo

Talvez uma das maneiras mais bonitas de reconhecer uma amizade verdadeira seja observar o que acontece quando desaparecem as circunstâncias que aproximaram duas pessoas.

O cargo terminou. A instituição mudou. O interesse profissional deixou de existir. Já não há oportunidade a oferecer, indicação a fazer ou favor a pedir.

E, mesmo assim, a pessoa continua ali.

Essas são relações preciosas.

Amizade verdadeira não se constrói apenas quando precisamos uns dos outros. Ela nasce da presença, da consideração, da lealdade, da gratidão e, principalmente, da capacidade de desejar sinceramente o crescimento do outro.

Por isso, a advocacia também me ensinou outra lição: ninguém precisa diminuir alguém para crescer.

Podemos compartilhar conhecimento, apresentar pessoas, abrir portas, criar oportunidades, recomendar colegas e celebrar sinceramente suas conquistas.

Quando ajudamos alguém a crescer, não necessariamente ficamos menores.

Muitas vezes, crescemos juntos.

Cultivar pessoas

Há algo que os anos tornam cada vez mais evidente: precisamos cuidar das pessoas enquanto elas estão conosco.

A vida passa depressa.

Os processos terminam. Os cargos acabam. As instituições mudam. O reconhecimento público também passa.

As relações humanas, entretanto, podem permanecer.

Depois de tantos anos de advocacia, uma das maiores riquezas que consigo enxergar em uma longa caminhada profissional é poder olhar ao redor e perceber que, além de uma carreira, construímos amizades.

Por isso, se pudesse deixar um conselho aos colegas, seria simples:

Trabalhem muito. Estudem. Construam uma boa reputação. Busquem prosperidade e reconhecimento profissional.

Mas não caminhem sozinhos.

Cultivem pessoas.

Telefonem sem precisar pedir alguma coisa. Celebrem a vitória de um colega. Agradeçam a quem abriu uma porta. Estejam presentes também quando não houver qualquer vantagem profissional envolvida.

Porque chegará um momento em que títulos, cargos e processos pertencerão ao passado.

E talvez então percebamos que algumas das maiores conquistas que a advocacia nos proporcionou nunca estiveram nos autos.

Estavam nas pessoas que caminharam conosco — e que, apesar do tempo, continuaram caminhando.

Esdras Dantas de Souza
Advogado e Professor de Direito
Presidente e fundador da Associação Brasileira de Advogados — ABA

Projeto Legado — Série “O Que a Advocacia Me Ensinou”
Outros artigos da série estão disponíveis no Portal Esdras Dantas.

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