Por Dante Navarro
Vivemos um tempo curioso e, ao mesmo tempo, preocupante. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tantos mecanismos de fiscalização e tantas formas de participação social. Ainda assim, cresce entre os brasileiros uma sensação de desconfiança em relação às instituições que sustentam a vida democrática.
A pergunta que surge é inevitável: o cidadão comum ainda acredita nas instituições?
A resposta não é simples. Talvez a confiança não tenha desaparecido por completo. O que parece existir é uma crise de credibilidade que se espalha por diversos setores da vida pública, atingindo órgãos, autoridades e estruturas que, historicamente, foram construídas para servir à sociedade.
Durante décadas, as instituições foram vistas como pilares de estabilidade. O Poder Judiciário, o Congresso Nacional, o Poder Executivo, os órgãos de controle, as universidades, a imprensa e tantas outras organizações representavam referências de autoridade e legitimidade. Hoje, porém, muitos brasileiros observam esses mesmos espaços com crescente desconfiança.
Parte desse fenômeno decorre da velocidade com que as informações circulam. Escândalos que antes demoravam meses para ganhar repercussão agora alcançam milhões de pessoas em questão de minutos. Investigações, denúncias, operações policiais e disputas políticas ocupam diariamente os noticiários e as redes sociais, criando a percepção de que os problemas são maiores e mais frequentes do que realmente são.
Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que fatos concretos contribuíram para esse cenário.
Nos últimos anos, o país acompanhou denúncias envolvendo autoridades dos mais diversos setores. Casos de corrupção, desvios de recursos públicos, abusos de poder e suspeitas de irregularidades passaram a ocupar espaço constante no debate nacional. Mais recentemente, investigações envolvendo magistrados suspeitos de comercialização de decisões judiciais chamaram a atenção da sociedade e provocaram forte repercussão.
É importante registrar que tais casos não representam a totalidade da magistratura brasileira. Pelo contrário. A imensa maioria dos juízes exerce suas funções com seriedade, independência e compromisso com a Constituição. Contudo, quando surgem suspeitas dessa natureza, o impacto na percepção pública é inevitável.
O cidadão comum raramente faz distinções técnicas. Quando vê notícias sobre afastamentos, investigações ou denúncias, tende a associar o problema à instituição como um todo. O dano à imagem coletiva muitas vezes supera a dimensão individual dos fatos investigados.
Esse fenômeno não ocorre apenas no Judiciário. Também afeta o Legislativo, o Executivo e diversas outras organizações públicas e privadas. A confiança, que leva décadas para ser construída, pode ser abalada em poucos dias.
Mas seria correto concluir que as instituições perderam completamente sua legitimidade?
A resposta é não.
Apesar das críticas e das dificuldades, são justamente as instituições que continuam investigando, fiscalizando, julgando e corrigindo irregularidades. Quando um agente público é investigado, quando um magistrado é afastado, quando um parlamentar responde a um processo ou quando um gestor é responsabilizado, isso também demonstra que mecanismos institucionais continuam funcionando.
Talvez o maior erro seja imaginar que a existência de problemas comprova o fracasso das instituições. Em uma democracia madura, o verdadeiro teste não é a ausência de falhas, mas a capacidade de identificá-las, enfrentá-las e corrigi-las.
A sociedade brasileira, entretanto, espera mais.
Espera transparência. Espera prestação de contas. Espera ética. Espera coerência entre discurso e prática. Espera que aqueles que exercem funções públicas compreendam que a confiança social é um patrimônio coletivo que precisa ser protegido diariamente.
Nesse contexto, surge uma reflexão ainda mais relevante. Talvez a pergunta central não seja se o cidadão continua acreditando nas instituições. Talvez a questão mais importante seja outra: as instituições estão fazendo o suficiente para merecer a confiança do cidadão?
A resposta exige humildade, autocrítica e compromisso permanente com a melhoria dos serviços públicos e da governança institucional.
As instituições democráticas continuam sendo indispensáveis para a estabilidade do país. Não existe democracia sem Poder Judiciário independente. Não existe democracia sem Parlamento. Não existe democracia sem órgãos de controle, imprensa livre e participação cidadã.
O caminho para fortalecer essas estruturas não passa pela sua destruição nem pela sua desmoralização. Passa pela transparência, pela responsabilidade e pela coragem de enfrentar os próprios erros.
Quando uma instituição reconhece suas falhas e promove os ajustes necessários, ela não demonstra fraqueza. Demonstra maturidade.
E talvez seja justamente essa maturidade que o cidadão brasileiro espera reencontrar para voltar a acreditar, plenamente, nas instituições que sustentam a República.
Dante Navarro é jornalista e colaborador do Ordem Democrática