Crescimento da exposição digital levanta debate sobre até onde advogados podem ir sem comprometer a dignidade profissional
Por Esdras Dantas de Souza
Introdução
Nunca foi tão fácil para um advogado se tornar visível — e talvez nunca tenha sido tão arriscado para a própria reputação.
O que está acontecendo
A advocacia entrou de vez na era digital. Redes sociais, vídeos curtos, lives e conteúdos virais passaram a integrar a rotina de muitos profissionais do Direito.
O fenômeno não é isolado. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube transformaram a forma como advogados se comunicam com o público.
Mas, junto com a visibilidade, surgiu um dilema: o marketing jurídico está ultrapassando os limites éticos da profissão?
Casos de promessas implícitas de resultado, exposição excessiva de clientes e conteúdos sensacionalistas passaram a chamar a atenção de órgãos reguladores e da própria classe.
Por que isso importa
A advocacia não é uma atividade comercial comum.
Regida por princípios éticos rigorosos — especialmente pela Ordem dos Advogados do Brasil —, a profissão exige sobriedade, discrição e respeito à dignidade do exercício jurídico.
Quando esses limites são ultrapassados, o impacto não é apenas individual.
Afeta a confiança da sociedade na advocacia como um todo.
A banalização da comunicação jurídica pode transformar o advogado em uma figura de entretenimento — e não de confiança técnica.
Impactos diretos na vida das pessoas
Para o cidadão comum, a mudança não é neutra.
Informações jurídicas superficiais ou sensacionalistas podem gerar falsas expectativas, decisões precipitadas e até prejuízos financeiros.
Além disso, a exposição indevida de casos pode ferir direitos fundamentais, como privacidade e sigilo profissional.
A pergunta que fica é inevitável:
o público está sendo informado… ou apenas atraído?
O que pode acontecer a partir de agora
A tendência é de maior fiscalização e amadurecimento das regras.
Nos últimos anos, a própria Ordem dos Advogados do Brasil já atualizou normas para permitir o uso das redes sociais — mas com limites claros.
O desafio, daqui para frente, será encontrar equilíbrio:
- usar o digital como ferramenta de informação e posicionamento
- sem transformar a advocacia em espetáculo
Especialistas apontam que o futuro da comunicação jurídica será pautado por três pilares:
credibilidade, responsabilidade e autenticidade.
Posicionamento jornalístico
O avanço do marketing jurídico não é, por si só, um problema.
Pelo contrário — pode democratizar o acesso à informação e aproximar o advogado da sociedade.
O risco está no excesso.
Entre informar e explorar, existe uma linha tênue.
E é justamente nessa linha que a advocacia precisa se posicionar com maturidade.
Em um cenário onde todos disputam atenção, vale refletir:
até que ponto a busca por visibilidade justifica abrir mão da essência da profissão?
Se a confiança é o maior patrimônio do advogado, qualquer estratégia que a comprometa pode custar caro — não apenas em processos disciplinares, mas em credibilidade.
Conclusão
A superexposição digital não é o inimigo da advocacia.
O verdadeiro risco está na perda de identidade.
Em tempos de algoritmos e curtidas, a advocacia é chamada a fazer uma escolha silenciosa — porém decisiva:
ser apenas vista… ou ser respeitada.
Esdras Dantas de Souza – Advogado, professor, colunista do Ordem Democrática
e presidente da Associação Brasleira de Advogados (ABA)