José Luis Campos Xavier leva à Convenção da ABA reflexão sobre o custo humano da busca por celeridade na Justiça

Desembargador do TRT da 1ª Região, que exerceu a advocacia trabalhista durante 27 anos antes de chegar à magistratura pelo quinto constitucional, discutiu saúde mental, produtividade e os limites humanos dos operadores do Direito

Quanto custa, humanamente, fazer a Justiça funcionar cada vez mais rápido?

A pergunta ganha especial significado quando formulada por alguém que conhece profundamente os dois lados do sistema: primeiro, durante quase três décadas como advogado; depois, como desembargador responsável por julgar conflitos e participar diariamente da engrenagem de um dos maiores tribunais trabalhistas do País.

Foi dessa posição privilegiada que o desembargador José Luis Campos Xavier, do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1), participou, no dia 20 de agosto, da 24ª Convenção Anual da Associação Brasileira de Advogados – ABA, no Windsor Barra Hotel, no Rio de Janeiro.

Convidado para falar sobre “Entre a Celeridade e o Colapso: Reflexões de um Julgador sobre a Saúde Mental dos Operadores do Direito”, Campos Xavier levou aos convencionais uma discussão que vai muito além de números, produtividade e estatísticas processuais.

Seu tema colocou no centro do debate aqueles sem os quais nenhuma estrutura de Justiça funciona: as pessoas.

Advogados, magistrados, membros do Ministério Público, servidores e demais profissionais são diariamente chamados a administrar conflitos, cumprir prazos, tomar decisões, atender clientes e jurisdicionados e responder à crescente expectativa social por uma Justiça cada vez mais eficiente.

Mas existe um limite que nenhuma tecnologia, meta ou indicador consegue eliminar: o limite humano.

Um julgador que conhece profundamente a advocacia

A presença de José Luis Campos Xavier na Convenção da ABA possui um significado particular.

Antes de vestir a toga, ele vestiu a beca.

Graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1988, Campos Xavier exerceu a advocacia durante 27 anos, com atuação predominantemente trabalhista.

Sua ligação com a classe não foi apenas profissional. Exerceu liderança associativa, presidindo por dois mandatos a Associação Carioca dos Advogados Trabalhistas e integrando também a direção do Sindicato dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro.

Em 2016, chegou ao TRT da 1ª Região pelo quinto constitucional destinado à advocacia, levando para a magistratura uma experiência construída durante décadas do outro lado da tribuna.

Essa origem permanece presente na forma como compreende sua responsabilidade institucional.

Ao falar publicamente sobre o quinto constitucional, Campos Xavier já definiu a chegada de um advogado à magistratura como o recebimento de uma verdadeira outorga de toda uma categoria profissional.

É uma concepção que ajuda a compreender a proximidade que o desembargador mantém com a advocacia e torna particularmente significativa sua participação em uma Convenção promovida por uma entidade de advogados.

Entre a celeridade e o colapso

A celeridade processual constitui uma aspiração legítima da sociedade.

Quem procura a Justiça deseja uma resposta em tempo razoável. Para quem aguarda o reconhecimento de um direito, anos de espera podem representar mais do que demora processual: podem significar sofrimento, insegurança e, em determinadas situações, a perda da própria utilidade da prestação jurisdicional.

Por isso, buscar eficiência é necessário.

O problema surge quando a legítima procura por celeridade se converte em uma cultura permanente de urgência.

Mais processos.

Mais decisões.

Mais audiências.

Mais clientes.

Mais mensagens.

Mais prazos.

Mais produtividade.

E, quase sempre, menos tempo.

O título escolhido por Campos Xavier para sua palestra sintetiza precisamente essa tensão: existe uma fronteira entre produzir com eficiência e exigir das pessoas um ritmo que não pode ser sustentado indefinidamente.

Quando essa fronteira é ultrapassada, o resultado pode deixar de ser produtividade e aproximar-se do esgotamento.

O processo possui números — mas também possui pessoas

A transformação tecnológica do Judiciário trouxe enormes avanços.

Processos eletrônicos, sessões virtuais, comunicação instantânea e novas ferramentas aumentaram a capacidade de trabalho e reduziram distâncias que antes dificultavam o acesso à Justiça.

Mas a mesma tecnologia que proporciona eficiência também contribuiu para tornar mais tênues as fronteiras entre trabalho e descanso.

O processo chega ao computador de casa.

O cliente chega pelo telefone celular.

A intimação chega eletronicamente.

A reunião pode acontecer de qualquer lugar.

E a sensação de disponibilidade permanente pode fazer com que o profissional jamais se desligue completamente de suas responsabilidades.

Nesse ambiente, discutir saúde mental deixa de ser assunto periférico.

Passa a integrar a discussão sobre a própria qualidade da Justiça.

Porque por trás de cada processo existe uma pessoa que espera uma decisão — mas também existem pessoas responsáveis por advogar, instruir, analisar e julgar aquele processo.

Uma Justiça saudável também depende de profissionais saudáveis.

Uma autoridade construída dos dois lados da tribuna

A contribuição de Campos Xavier para essa discussão ganha ainda mais relevância por sua trajetória.

Ele conhece as pressões da advocacia.

Conhece o compromisso com o cliente.

Conhece prazos, audiências, sustentações e responsabilidades profissionais.

E conhece igualmente o peso da função de julgar.

Como desembargador do TRT-1, também exerceu funções institucionais relevantes, entre elas a de Ouvidor Regional. Sua atuação contemporânea inclui participação em iniciativas relacionadas à prevenção da violência laboral, do assédio e da discriminação no ambiente de trabalho.

Não se trata, portanto, de uma reflexão distante de sua experiência.

Ao abordar a saúde mental dos operadores do Direito, Campos Xavier fala a partir de uma carreira que lhe permitiu observar o sistema de Justiça por ângulos diferentes.

Essa experiência constitui precisamente uma das razões pelas quais sua presença enriqueceu a programação da Convenção.

Crescer profissionalmente não pode significar adoecer

A Associação Brasileira de Advogados tem como missão promover o crescimento e o reconhecimento profissional de seus associados.

Mas existe uma questão anterior ao crescimento: que espécie de sucesso profissional queremos construir?

Uma advocacia sustentável não pode ser baseada na ideia de que trabalhar até o limite é demonstração de competência.

Não pode transformar exaustão em símbolo de mérito.

Não pode considerar normal que o advogado esteja permanentemente disponível.

Nem pode confundir quantidade de trabalho com qualidade profissional.

Crescimento verdadeiro exige conhecimento, relacionamento, reputação, planejamento e oportunidades. Mas exige também capacidade de construir uma carreira que possa ser vivida durante décadas.

A palestra de Campos Xavier trouxe justamente essa dimensão humana para dentro da formação profissional proposta pela ABA.

“Um magistrado que não esqueceu sua origem na advocacia”

Para o presidente da Associação Brasileira de Advogados – ABA, Esdras Dantas, a presença do desembargador possui também grande significado institucional.

“Receber o desembargador José Luis Campos Xavier em nossa Convenção foi uma grande honra. Estamos diante de um magistrado respeitado que conhece profundamente a advocacia porque a exerceu durante 27 anos e chegou ao Tribunal pelo quinto constitucional. É um julgador que não esqueceu sua origem na advocacia e mantém aberto o diálogo com a classe. Quando um profissional com essa trajetória aceita nosso convite para compartilhar sua experiência com os associados da ABA, ele nos proporciona um conhecimento que não se encontra apenas nos livros.”

A presença do desembargador também reforça uma convicção defendida pela ABA: advocacia e magistratura exercem funções distintas, mas não precisam viver em mundos separados.

O diálogo institucional qualificado contribui para que advogados compreendam melhor o Judiciário e para que magistrados permaneçam atentos às dificuldades enfrentadas diariamente por aqueles que representam os jurisdicionados.

Uma carreira que ajuda a aproximar advocacia e magistratura

A história profissional de José Luis Campos Xavier possui ainda um aspecto simbólico.

Ao ingressar no Tribunal pelo quinto constitucional, ele levou consigo décadas de experiência da advocacia.

E manteve uma característica incomum e significativa: a disposição de prestar contas à própria classe que participou de sua chegada à magistratura.

Campos Xavier já apresentou à OAB/RJ relatórios de sua atuação no Tribunal, preservando um canal de diálogo com a instituição de origem e demonstrando compreender o quinto constitucional não simplesmente como mecanismo de acesso a um cargo, mas como representação de uma experiência profissional que deve contribuir para a pluralidade do Judiciário.

Esse comportamento ajuda a explicar por que sua voz possui especial autoridade diante de uma plateia formada majoritariamente por advogados.

Ele conhece aquele lugar.

Já esteve naquela posição.

E sabe que, por trás do profissional que sustenta uma tese diante do julgador, existe alguém submetido a cobranças, responsabilidades e expectativas semelhantes às existentes dentro da própria magistratura.

Justiça mais rápida, mas também mais humana

A busca pela eficiência continuará.

Novas tecnologias serão incorporadas.

A inteligência artificial ampliará a capacidade de pesquisa, organização e produção.

Metas continuarão existindo.

Clientes continuarão cobrando respostas.

A sociedade continuará desejando uma Justiça mais rápida.

Mas a reflexão levada por José Luis Campos Xavier à 24ª Convenção da ABA deixa uma questão que merece permanecer depois que as luzes do auditório se apagam:

de que adiantará construir um sistema cada vez mais veloz se aqueles responsáveis por fazê-lo funcionar não conseguirem suportar a velocidade que lhes é exigida?

Ao abrir espaço para esse debate, a ABA reafirma que formação profissional não significa apenas ensinar o advogado a produzir mais.

Significa ajudá-lo a produzir melhor, crescer de forma sustentável e construir uma trajetória profissional que preserve aquilo que nenhuma máquina poderá substituir: sua capacidade humana de compreender, decidir, argumentar, relacionar-se e servir à Justiça.

E ao aceitar o convite para compartilhar sua experiência com os convencionais, José Luis Campos Xavier levou à ABA muito mais do que as reflexões de um julgador. Levou o olhar de quem conhece a Justiça dos dois lados da tribuna — e sabe que, em ambos, existem seres humanos.

Da Redação do Ordem Democrática

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