O Brasil convive, há anos, com uma das mais dolorosas e preocupantes realidades sociais do nosso tempo: o crescimento da violência contra a mulher e os alarmantes índices de feminicídio.
Por trás de cada número, existe uma vida interrompida.
Existe uma família destruída.
Existem filhos marcados para sempre.
Existe uma sociedade que, silenciosamente, também adoece.
O feminicídio não pode ser tratado apenas como uma estatística criminal.
Ele representa uma grave crise humana, social e moral que desafia instituições, famílias e toda a consciência coletiva do país.
A morte violenta de mulheres pelo simples fato de serem mulheres revela algo profundamente preocupante:
a incapacidade de parte da sociedade de conviver com o respeito, com os limites, com a dignidade humana e com o valor da vida.
Nenhuma nação verdadeiramente justa pode se acostumar com isso.
O tema exige maturidade.
Exige responsabilidade.
Exige firmeza institucional.
Mas exige, acima de tudo, humanidade.
É preciso compreender que o enfrentamento ao feminicídio não depende apenas da repressão penal, embora ela seja necessária.
A solução passa também pela educação, pela conscientização, pelo fortalecimento da família, pela valorização do respeito mútuo e pela construção de uma cultura de paz.
A violência quase nunca começa com o crime extremo.
Ela normalmente se inicia de maneira silenciosa:
na agressão verbal,
na humilhação,
no controle excessivo,
na intimidação,
na violência psicológica,
na naturalização do desrespeito.
Quando a sociedade ignora pequenos sinais, muitas vezes acaba assistindo, mais tarde, a tragédias irreparáveis.
Por isso, a prevenção deve ocupar posição central nesse debate.
É indispensável fortalecer políticas públicas sérias de proteção às mulheres, ampliar mecanismos de acolhimento, garantir segurança às vítimas e assegurar o funcionamento eficiente das instituições responsáveis pela proteção da vida.
Delegacias especializadas, Ministério Público, Poder Judiciário, forças de segurança, assistência social e demais órgãos públicos precisam atuar de maneira integrada, eficiente e humanizada.
Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer a importância da advocacia nesse processo.
A advocacia exerce papel essencial na defesa dos direitos fundamentais, na orientação jurídica das vítimas, na busca por medidas protetivas e na preservação do acesso à Justiça.
O advogado e a advogada, quando atuam com responsabilidade e compromisso humano, tornam-se instrumentos importantes de proteção da dignidade da pessoa humana.
Também merece reconhecimento o trabalho de magistrados, promotores, defensores públicos, delegados, policiais e profissionais da assistência social que, diariamente, enfrentam situações extremamente delicadas e dolorosas para tentar salvar vidas e evitar novas tragédias.
O Brasil precisa transformar indignação em consciência coletiva.
Não basta lamentar episódios de violência apenas quando eles ganham repercussão nacional.
É necessário construir uma cultura permanente de respeito à mulher, de valorização da vida e de combate a todas as formas de violência doméstica e familiar.
Essa reflexão precisa alcançar escolas, universidades, famílias, meios de comunicação, instituições públicas e toda a sociedade civil.
A preservação da vida deve ser um compromisso nacional.
Uma sociedade que falha em proteger suas mulheres também compromete seu próprio futuro.
O combate ao feminicídio não pertence a ideologias.
Pertence à humanidade.
Defender a vida das mulheres é defender a dignidade humana, a estabilidade das famílias, a proteção das futuras gerações e o próprio fortalecimento do Estado Democrático de Direito.
O Brasil precisa avançar nesse debate com equilíbrio, responsabilidade e união.
Sem radicalismos.
Sem exploração política.
Sem discursos de ódio.
Mas com firmeza moral, consciência social e profundo compromisso com a vida.
Porque nenhuma sociedade será verdadeiramente civilizada enquanto mulheres continuarem perdendo a vida dentro de seus próprios lares, vítimas do medo, da violência e da intolerância.
A proteção da mulher não é apenas uma pauta jurídica ou institucional.
É um dever humano.
Esdras Dantas de Souza — Advogado, Professor e Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)
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