Envelhecer não deve significar deixar de decidir, produzir, sonhar ou participar da vida.
Ao contrário. Depois dos 70 anos, a experiência acumulada pode transformar-se em um dos maiores patrimônios de uma pessoa. Mas essa etapa da vida também exige algumas decisões importantes para preservar aquilo que talvez seja ainda mais valioso do que os bens materiais: autonomia, dignidade, segurança e propósito.
Há quatro atitudes que merecem especial atenção.
Primeiro: resolva seus próprios problemas
Sempre que possível, não transfira automaticamente para os filhos, parentes ou outras pessoas aquilo que você ainda pode resolver.
Peça ajuda quando precisar — isso é natural em qualquer idade. Mas não abra mão desnecessariamente da capacidade de decidir.
Cuide dos seus documentos, organize suas questões patrimoniais, mantenha suas informações importantes acessíveis, converse sobre suas decisões e procure orientação profissional quando necessário.
Problemas adiados tendem a se tornar problemas maiores. E organização também é uma forma de cuidar de quem amamos.
Segundo: preserve sua autonomia
Autonomia significa continuar sendo protagonista da própria história.
É poder manifestar suas preferências, administrar sua rotina, escolher seus relacionamentos, tomar decisões e participar ativamente da vida familiar e social.
A família deve ser uma rede de proteção, afeto e apoio — não de substituição desnecessária da vontade da pessoa idosa.
É claro que determinadas circunstâncias podem exigir auxílio. Mas envelhecer, por si só, não retira de ninguém o direito de escolher os caminhos da própria vida.
Preservar a autonomia é preservar dignidade.
Terceiro: cuide da sua vida financeira
A longevidade tornou o planejamento financeiro ainda mais importante.
Conheça suas receitas e despesas. Saiba onde estão seus recursos. Evite assumir obrigações financeiras que possam comprometer sua tranquilidade. Tenha cautela com empréstimos, garantias, procurações, negócios pouco compreendidos e solicitações de dinheiro feitas até mesmo por pessoas próximas.
Generosidade é uma virtude. Mas ela não deve colocar em risco a segurança de quem trabalhou durante décadas para construir seu patrimônio.
Ajudar filhos e netos pode ser uma alegria. Entretanto, não entregue o seu futuro para resolver o presente dos outros.
Sua segurança financeira também é uma forma de autonomia.
Quarto: continue sendo útil — tenha um propósito
Talvez este seja um dos pontos mais importantes.
A aposentadoria de uma atividade profissional não precisa significar aposentadoria da vida.
Ensine. Leia. Escreva. Participe de projetos. Conviva com pessoas de outras gerações. Compartilhe experiências. Aprenda algo novo. Ajude uma instituição. Oriente alguém que está começando. Mantenha-se intelectualmente ativo.
E, sobretudo, tenha projetos.
Pode ser uma atividade profissional, voluntária, intelectual, familiar, espiritual, cultural ou comunitária. O importante é acordar sabendo que existe alguma coisa que ainda merece sua atenção, seu conhecimento e sua presença.
Depois de determinada idade, talvez não precisemos mais acumular tantas coisas. Podemos começar a investir ainda mais em algo que o tempo valoriza: sabedoria.
Sabedoria para distinguir o essencial do acessório.
Sabedoria para dizer “sim”, mas também para dizer “não”.
Sabedoria para cuidar dos outros sem abandonar a si próprio.
E sabedoria para compreender que experiência não é apenas aquilo que aconteceu conosco. É aquilo que conseguimos transformar em aprendizado e transmitir às próximas gerações.
A ABA e a defesa da pessoa idosa
A Associação Brasileira de Advogados – ABA entende que a defesa dos direitos da pessoa idosa não pode se limitar à reação diante de abusos ou violações. É preciso também trabalhar com informação, prevenção, conscientização e valorização da autonomia.
Por meio do seu Departamento de Defesa dos Direitos dos Idosos, a ABA pretende contribuir para ampliar o debate sobre temas que fazem parte da vida real: autonomia, patrimônio, relações familiares, prevenção de golpes e abusos, acesso à Justiça, planejamento sucessório, proteção jurídica e respeito à dignidade da pessoa idosa.
A advocacia também possui uma missão social: levar conhecimento às pessoas antes que o conflito aconteça.
E existe uma mensagem que merece ser repetida para quem ultrapassou os 70 anos:
Não deixe que a idade retire de você aquilo que o tempo levou décadas para construir. Preserve sua autonomia, cuide do que conquistou, continue participando da vida e transforme experiência em sabedoria.
O calendário pode contar os anos.
Mas propósito não tem idade.