Consciência Negra e Advocacia: A Coragem de Ser Voz em um País que Ainda Aprende a Ouvir


Por Esdras Dantas de Souza

Introdução

No Brasil, o Dia da Consciência Negra, celebrado hoje, 20 de novembro — feriado nacional — não é apenas uma data no calendário: é um lembrete vivo de resistência, dignidade e coragem. Para muitos, é um feriado; para outros, é memória. Para os advogados e advogadas negros, porém, é identidade, jornada e propósito. É a marca de quem venceu o silêncio imposto, atravessou portas que insistiam em não se abrir, enfrentou olhares que tentaram diminuir e, ainda assim, escolheu levantar a cabeça, vestir a beca e dizer ao mundo: “Estou aqui. Sou Direito. Sou justiça. Sou futuro.”

Como presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA), meu compromisso é reafirmar, hoje e sempre, que cada profissional negro da advocacia carrega consigo não apenas um diploma, mas uma história inteira de superação coletiva. E essa história precisa ser contada, respeitada e, acima de tudo, reconhecida.

Este artigo é um chamado.
Um reconhecimento.
Um abraço público.
E um lembrete de que você, advogado ou advogada negra, é parte estrutural da transformação que o Brasil ainda precisa viver.

Honrar a Consciência Negra é reconhecer os desafios que persistem na Advocacia

Celebrar o Dia da Consciência Negra é também encarar realidades que muitos preferem ignorar. No universo jurídico, onde acreditamos que a justiça é cega, o preconceito ainda enxerga muito bem. Para advogados e advogadas negros, o caminho frequentemente inclui obstáculos extras: falta de representatividade em posições de liderança, subestimação profissional, barreiras de acesso e oportunidades que chegam mais tarde — ou que nunca chegam.

Mas aqui está a verdade que precisa ser dita em voz alta:
mesmo diante de tudo isso, vocês seguem.

Seguem brilhando em tribunais, audiências, escritórios, empresas, órgãos públicos e nas trincheiras da advocacia autônoma.
Seguem estudando, superando, se reinventando, abrindo caminhos para a próxima geração.
Seguem trazendo humanidade ao Direito e coragem à Justiça.

A Consciência Negra, dentro da advocacia, é o ato contínuo de dizer ao país:
“Nós existimos, nós resistimos e nós avançamos.”


A força que vem de longe: raízes, ancestralidade e propósito

Nenhum advogado negro caminha sozinho. Há uma herança inteira empurrando para frente. Há nomes, vozes e histórias que ecoam antes mesmo da primeira petição ser assinada.
A ancestralidade é um farol silencioso — e um lembrete de que ninguém começa do zero.

Cada advogado e advogada negra representa uma vitória coletiva.
Cada conquista é uma reparação histórica.
Cada passo é uma afirmação: “chegamos até aqui, e iremos mais longe.”

É por isso que, hoje, a advocacia celebra não apenas carreiras individuais, mas propósitos que sobrevivem gerações.

Afinal, fazer parte da advocacia é mais do que exercer uma profissão.
É fazer justiça com as próprias mãos, com a própria voz, com a própria história.
E poucos sabem fazer isso com tanta força quanto quem precisou lutar duas vezes: a primeira, para existir; a segunda, para ser reconhecido.

A mensagem da ABA: vocês não caminham sozinhos. Vocês fazem parte do futuro que estamos construindo juntos

Como presidente da Associação Brasileira de Advogados, deixo aqui uma mensagem que nasce do coração e se apoia no propósito maior da nossa entidade:
fazer advogados brilharem.
E isso inclui, com absoluta prioridade, a valorização de cada advogado e advogada negra que encontra na ABA um lugar de pertencimento, acolhimento e oportunidade.

Vocês são essenciais.
Vocês são inspiração.
Vocês carregam uma coragem que transforma ambientes, que abre portas e que muda histórias.

A ABA existe para ampliar vozes, fortalecer carreiras e oferecer visibilidade — e a sua trajetória merece luz.
Queremos vê-los liderando comissões, palestrando, ganhando espaço, influenciando debates, sendo protagonistas do Direito brasileiro.

Que este Dia da Consciência Negra seja mais do que uma lembrança anual.
Seja um pacto:
o pacto de que vocês nunca mais serão invisíveis;
o pacto de que ocuparão, com legitimidade e orgulho, todos os espaços que por tanto tempo lhes foram negados;
o pacto de que estão, definitivamente, escrevendo um novo capítulo da advocacia brasileira.

Conclusão – Uma mensagem de força, esperança e propósito

A Consciência Negra não é sobre cor.
É sobre coragem.
Não é sobre passado.
É sobre futuro.
Não é sobre dor.
É sobre potência.

A você, advogado ou advogada negra deste país, deixo meu respeito, minha admiração e meu compromisso.
A sua luta é, também, a nossa luta.
A sua voz é parte indispensável da justiça que queremos construir.
A sua presença não é apenas bem-vinda — é necessária.

Neste 20 de novembro, digo em alto e bom som:
sigam firmes, sigam fortes, sigam brilhando.
A ABA está com vocês.
E o Brasil precisa de vocês.

Se este artigo tocou o seu coração, compartilhe com alguém que também merece ser lembrado, celebrado e fortalecido hoje.

A mudança que queremos começa com uma voz — e a sua é poderosa.

Conte sempre conosco.

Esdras Dantas de Souza é advogado, professor de Dirito Público Interno e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)

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