Por Esdras Dantas de Souza — Advogado e professor. Ex-Presidente da OAB/DF e Diretor do Conselho Federal da OAB. Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA).
Por trás de cada carteira profissional existe uma pessoa. Alguém que tem sonhos, responsabilidades, contas a pagar, uma família para cuidar e, muitas vezes, dificuldades que ninguém conhece.
Quando um advogado recebe sua carteira profissional, não recebe apenas um documento que o habilita ao exercício da advocacia. Recebe também a responsabilidade de defender direitos, proteger liberdades, buscar justiça e representar pessoas que depositam nele suas esperanças.
É um momento de orgulho. Uma conquista que costuma representar anos de estudos, sacrifícios e expectativas.
Mas existe uma realidade sobre a qual precisamos conversar com mais frequência.
Depois da solenidade de entrega da carteira, quando começam os desafios da vida profissional, com quem esse advogado pode contar?
Quem o acolhe quando os primeiros clientes não aparecem? Quem o orienta quando não consegue receber seus honorários? Quem o escuta quando uma autoridade desrespeita suas prerrogativas? Quem se preocupa quando ele adoece, enfrenta dificuldades financeiras ou começa a pensar em abandonar a profissão?
São perguntas simples. Mas suas respostas dizem muito sobre a realidade da advocacia brasileira.
A solidão de quem vive defendendo os outros
A advocacia é uma profissão marcada por responsabilidades que nem sempre são compreendidas pela sociedade.
O advogado recebe pessoas angustiadas, famílias em conflito, trabalhadores que perderam seus empregos, empresários em dificuldades e cidadãos que tiveram seus direitos violados.
Precisa ouvir, compreender, orientar e encontrar soluções.
Muitas vezes, carrega consigo problemas que não são seus, mas que passam a ocupar seus pensamentos, suas noites e seus finais de semana.
Entretanto, quando o próprio advogado enfrenta dificuldades, nem sempre encontra alguém disposto a ouvi-lo.
Há profissionais que trabalham sozinhos, sem uma equipe com quem compartilhar dúvidas. Há jovens advogados que não sabem por onde começar. Há colegas experientes que, depois de décadas de dedicação, enfrentam a diminuição da clientela e a insegurança financeira.
Existem, ainda, aqueles que aparentam tranquilidade nas redes sociais, mas vivem silenciosamente a angústia de não saber como pagar as despesas do mês seguinte.
A carteira profissional identifica o advogado. Mas não revela as dificuldades que ele enfrenta para continuar exercendo a profissão.
Precisamos olhar também para essa realidade.
O que os advogados realmente esperam de suas instituições?
Ao longo de minha trajetória na advocacia, no magistério jurídico e na vida institucional, aprendi que os profissionais não esperam apenas discursos de valorização.
Esperam atitudes.
Desejam que suas prerrogativas sejam respeitadas e defendidas. Que seus honorários sejam valorizados. Que encontrem oportunidades de capacitação, orientação e desenvolvimento profissional.
Querem uma Justiça que funcione, processos que avancem e sistemas eletrônicos que não se transformem em obstáculos ao trabalho.
Esperam, também, que as contribuições financeiras exigidas para o exercício profissional sejam acompanhadas de transparência, sensibilidade e serviços efetivamente úteis.
Mas existe uma expectativa que, em minha avaliação, reúne todas as demais: o advogado quer sentir que não está sozinho.
Quer saber que existe uma instituição capaz de ouvi-lo, compreender suas dificuldades e agir em seu favor dentro das respectivas competências.
Isso não significa esperar que as entidades profissionais resolvam todos os problemas individuais de seus integrantes.
Significa reconhecer que a representação institucional não se esgota na defesa abstrata da profissão. Ela precisa manter contato permanente com a realidade das pessoas que a exercem.
Entre a representação institucional e a vida real
A Ordem dos Advogados do Brasil possui uma história de relevantes serviços prestados à advocacia, à Justiça, ao Estado Democrático de Direito e à sociedade brasileira.
Sua atuação institucional é indispensável.
Defender prerrogativas, fiscalizar o exercício profissional, promover a ética e preservar a independência da advocacia são responsabilidades de enorme importância.
Entretanto, reconhecer essa trajetória não impede uma reflexão necessária: as instituições representativas conseguem perceber, com a profundidade desejável, as dificuldades cotidianas dos profissionais?
Essa pergunta não deve ser interpretada como uma crítica dirigida a pessoas ou administrações.
É um convite ao aperfeiçoamento institucional.
As necessidades da advocacia mudaram. A profissão tornou-se mais numerosa, competitiva, tecnológica e diversificada.
O advogado que atua sozinho no interior do país enfrenta dificuldades diferentes daquelas vividas por um profissional de um grande escritório.
A jovem advogada que tenta conquistar seus primeiros clientes possui necessidades distintas das de um colega que, depois de quarenta anos de profissão, procura reorganizar sua atividade.
O profissional que depende exclusivamente dos honorários para sustentar sua família também precisa ser ouvido.
Não existe uma advocacia formada por pessoas com dificuldades idênticas.
Por isso, representar bem a advocacia exige conhecer não apenas seus direitos, mas também suas necessidades humanas, econômicas e profissionais.
E conhecer exige ouvir.
O apoio que chega antes da crise
Tenho refletido sobre uma mudança de perspectiva que considero especialmente importante.
Estamos acostumados a valorizar as instituições quando elas intervêm diante de uma violação de direitos ou de uma situação de emergência.
E essa atuação é absolutamente necessária.
Mas por que não ampliar nossa atenção para o apoio preventivo?
Por que não ajudar o jovem advogado a desenvolver competências profissionais antes que o desânimo o leve a abandonar a carreira?
Por que não aproximar colegas experientes daqueles que estão começando?
Por que não criar redes de relacionamento que permitam compartilhar conhecimentos, experiências e oportunidades legítimas de trabalho?
Por que não oferecer orientação sobre gestão financeira, precificação de honorários, organização de escritórios, tecnologia e desenvolvimento profissional?
E por que não estabelecer mecanismos de acolhimento para os profissionais que enfrentam momentos de vulnerabilidade?
Uma instituição que oferece apoio apenas quando o problema se torna grave cumpre uma função importante.
Mas uma instituição que ajuda a evitar o agravamento das dificuldades realiza algo igualmente valioso: contribui para preservar a dignidade profissional.
A advocacia precisa de pertencimento
Há uma diferença profunda entre estar inscrito em uma instituição e sentir-se parte dela.
A inscrição é um vínculo formal.
O pertencimento é um vínculo humano.
O primeiro pode ser comprovado por um documento. O segundo se constrói pela convivência, pela confiança, pela solidariedade e pelo reconhecimento.
Um advogado pode possuir sua carteira profissional há vinte anos e, ainda assim, sentir que ninguém conhece suas dificuldades.
Pode participar de solenidades, receber comunicações institucionais e acompanhar discursos sobre a importância da advocacia, sem jamais ter experimentado um gesto concreto de acolhimento.
É precisamente essa distância que precisamos diminuir.
Não basta afirmar que a advocacia é indispensável à administração da Justiça, como estabelece a Constituição Federal.
Precisamos demonstrar, em nossas atitudes, que cada advogado também é importante para a comunidade profissional à qual pertence.
A valorização da advocacia começa pela valorização das pessoas que a exercem.
O compromisso da Associação Brasileira de Advogados
Na Associação Brasileira de Advogados, temos procurado desenvolver uma compreensão de vida associativa fundada na aproximação entre profissionais, na troca de experiências, na capacitação e na criação de oportunidades de crescimento.
A ABA não pretende substituir a OAB nem disputar suas atribuições legais.
Nossa missão é complementar os esforços de valorização da advocacia, oferecendo espaços de convivência, cooperação, visibilidade e desenvolvimento profissional.
Acreditamos que o advogado cresce quando amplia seus conhecimentos, fortalece sua reputação, constrói relacionamentos de confiança e encontra oportunidades de contribuir para o crescimento de outros colegas.
Mas também reconhecemos que precisamos avançar.
Nenhuma instituição deve presumir que conhece todas as necessidades de seus integrantes apenas porque mantém contato frequente com eles.
Ouvir alguns profissionais não significa, necessariamente, conhecer a realidade de toda a advocacia.
É necessário ampliar essa escuta.
E é nesse ponto que desejo apresentar uma proposta.
Uma pesquisa nacional para ouvir a advocacia brasileira
Considero oportuno que a Associação Brasileira de Advogados desenvolva uma pesquisa nacional, aberta aos seus associados e a outros profissionais da advocacia, para identificar suas principais dificuldades e expectativas de apoio institucional.
Não seria uma pesquisa destinada a avaliar dirigentes, promover disputas corporativas ou estabelecer comparações políticas entre entidades.
Seu propósito seria muito mais construtivo: compreender o que os advogados precisam para exercer a profissão com dignidade e quais formas de apoio consideram mais importantes.
Gostaria que essa pesquisa procurasse responder, entre outras, a algumas questões fundamentais:
- Quais são as maiores dificuldades enfrentadas atualmente no exercício da advocacia?
- Que tipos de apoio institucional os advogados consideram prioritários?
- Quais serviços e benefícios efetivamente utilizam?
- Em quais situações se sentiram desamparados?
- Que iniciativas poderiam contribuir para melhorar suas condições de trabalho, sua remuneração e seu desenvolvimento profissional?
- Como as instituições podem aproximar-se dos advogados que trabalham isoladamente ou enfrentam dificuldades econômicas?
A pesquisa deverá respeitar o anonimato dos participantes, a proteção de seus dados pessoais e critérios metodológicos que permitam interpretar os resultados com responsabilidade.
Não se trata de produzir números para confirmar opiniões previamente estabelecidas.
Trata-se de permitir que os próprios advogados indiquem suas necessidades.
Os resultados poderão orientar projetos concretos de capacitação, acolhimento, relacionamento profissional, apoio à jovem advocacia, valorização dos profissionais experientes e desenvolvimento de novas oportunidades.
Também poderão contribuir para o diálogo construtivo com outras instituições comprometidas com a advocacia brasileira.
Antes de dizer ao advogado aquilo de que ele precisa, precisamos perguntar o que está faltando em sua vida profissional.
A grandeza de uma instituição está também na maneira como cuida das pessoas
Depois de tantos anos dedicados à advocacia e à vida institucional, continuo acreditando que as entidades profissionais desempenham um papel indispensável na construção de uma sociedade mais justa.
Mas aprendi, também, que a grandeza de uma instituição não pode ser medida apenas pelo número de inscritos, pela dimensão de sua estrutura, pela importância de seus dirigentes ou pela quantidade de eventos que realiza.
Ela também precisa ser reconhecida pela confiança que desperta nas pessoas.
Pela capacidade de ouvir.
Pela disposição de acolher.
Pela coragem de reconhecer o que precisa melhorar.
E, sobretudo, pela presença concreta na vida daqueles que representa ou reúne.
Uma instituição verdadeiramente comprometida com seus integrantes não deve perguntar apenas quantos profissionais fazem parte de seus quadros.
Deve perguntar quantos deles encontram, nessa convivência institucional, apoio para continuar, coragem para enfrentar dificuldades e oportunidades para crescer.
Porque, no final, o advogado que passa seus dias defendendo os direitos dos outros também precisa sentir que seus próprios direitos, suas dificuldades e sua dignidade importam.
O advogado brasileiro não quer apenas uma carteira profissional. Quer saber com quem pode contar.
E talvez uma das mais importantes demonstrações de compromisso institucional seja poder responder a essa expectativa com atitudes, e não apenas com palavras.
Esdras Dantas de Souza
Advogado e professor. Ex-Presidente da OAB/DF e Diretor do Conselho Federal da OAB. Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA).