Por Esdras Dantas de Souza
Há conhecimentos que adquirimos nos livros. Outros aprendemos nas salas de aula, nos tribunais, nas empresas, nas instituições e no exercício diário de nossas profissões. Mas existem lições que somente a vida consegue ensinar.
São aquelas que chegam com o tempo.
Aprendemos com as vitórias, mas também com as derrotas. Com as pessoas que acreditaram em nós e com aquelas que nos decepcionaram. Com projetos que prosperaram e com outros que precisaram ser abandonados. Aprendemos quando acertamos — e, talvez ainda mais, quando somos obrigados a reconhecer nossos próprios erros.
Com o passar dos anos, algumas dessas lições deixam de ser simples experiências e se transformam em convicções.
Tenho pensado muito sobre isso, especialmente no exercício da Presidência da Associação Brasileira de Advogados (ABA), onde convivo com profissionais das mais diferentes gerações, regiões e trajetórias.
Liderar uma instituição ensina muito sobre pessoas.
Ensina que competência é importante, mas caráter é indispensável. Que relacionamentos precisam ser cultivados. Que nem toda ausência deve ser lamentada. Que algumas portas precisam ser abertas e outras, fechadas. E, principalmente, que liderança não deveria ser medida apenas pelas conquistas de quem lidera, mas pelo crescimento que sua passagem proporciona aos demais.
Foi a partir dessas reflexões que reuni 12 princípios para liderar, crescer, servir e deixar legado.
Não os apresento como verdades absolutas. São convicções construídas pela experiência e que procuro levar também para a cultura de liderança que desejamos fortalecer na ABA.
1. Faça mais. Fale menos.
Vivemos numa época em que parece necessário anunciar tudo.
Anunciam-se projetos antes de começarem, intenções antes de se transformarem em atitudes e conquistas antes mesmo de estarem consolidadas.
Aprendi a confiar mais no trabalho do que no anúncio.
Há uma força extraordinária em construir silenciosamente. Nem toda realização precisa ser antecipada. Nem toda vitória precisa ser proclamada.
Faça. Realize. Entregue. E permita que os resultados falem por você.
2. Proteja seus planos até que eles se tornem realidade.
Compartilhar sonhos é importante. Mas discernir com quem compartilhá-los é igualmente importante.
Projetos ainda frágeis precisam de trabalho, planejamento e proteção.
Há um tempo para sonhar, um tempo para construir e um tempo para apresentar ao mundo aquilo que foi construído.
Nem sempre precisamos explicar o que estamos fazendo.
Primeiro faça acontecer. Depois conte a história.
3. Faça o bem sem transformá-lo em dívida.
Talvez uma das maiores fontes de frustração humana seja esperar que as pessoas nos devolvam exatamente aquilo que lhes oferecemos.
Nem sempre acontecerá.
Você poderá oferecer lealdade e não recebê-la de volta. Poderá abrir portas para alguém que, no futuro, talvez nem se lembre de quem as abriu. Poderá ajudar pessoas que jamais terão condições — ou disposição — para retribuir.
Isso não deve mudar os seus valores.
Faça o bem porque fazer o bem revela o seu caráter.
Não permita que a ingratidão dos outros determine a pessoa que você será.
4. Seja melhor do que ontem.
Comparar nossa trajetória com a dos outros é uma armadilha.
Sempre encontraremos alguém mais jovem, mais conhecido, mais rico, mais influente ou aparentemente mais bem-sucedido.
A comparação verdadeiramente útil é outra.
Quem sou hoje em relação a quem fui ontem?
Aprendi alguma coisa? Corrigi algum erro? Tornei-me mais preparado? Mais paciente? Mais generoso? Mais competente?
Crescimento verdadeiro é processo.
Nossa principal competição deveria ser com a pessoa que fomos ontem.
5. Pratique a gratidão enquanto constrói o futuro.
Gratidão não significa conformismo.
Podemos agradecer profundamente pelo que temos e, ao mesmo tempo, desejar avançar.
Podemos celebrar aquilo que conquistamos e continuar perseguindo novos objetivos.
Aliás, considero perigoso quando a ambição nos faz esquecer a caminhada.
Ninguém chega sozinho.
Em algum momento, alguém acreditou em nós, abriu uma porta, ofereceu uma oportunidade, deu um conselho, estendeu uma mão ou simplesmente permaneceu ao nosso lado quando ainda não tínhamos nada para oferecer.
Sonhe com aquilo que ainda deseja conquistar, mas nunca despreze aquilo que já recebeu.
6. Tenha coragem para deixar ir.
Nem tudo aquilo que começou conosco precisa terminar conosco.
Há projetos que cumprem sua missão. Relações que encerram seu ciclo. Ambientes que deixam de fazer sentido. Ideias que precisam ser substituídas.
E frequentemente sofremos porque tentamos preservar artificialmente aquilo que a própria vida já está nos mostrando que terminou.
Persistência é uma virtude. Apego nem sempre.
A sabedoria está em perceber a diferença.
Às vezes, avançar exige ter coragem de soltar aquilo que insistimos em carregar.
7. Trabalhe pelo futuro que deseja viver.
Todos desejamos liberdade. Poucos gostam de falar sobre o preço que ela cobra.
Resultados consistentes dificilmente são produzidos por esforços ocasionais.
Há momentos em que será necessário estudar enquanto outros descansam, trabalhar quando ninguém está olhando, continuar quando o reconhecimento ainda não chegou e acreditar quando os resultados ainda são pequenos.
Isso não significa transformar trabalho em obsessão nem abandonar a família, a saúde ou a própria vida.
Significa compreender o valor da disciplina.
O futuro que desejamos viver começa nas escolhas que fazemos quando ninguém está nos cobrando.
8. Confie nos encontros e também nas despedidas.
Pessoas entram e saem de nossas vidas.
Algumas permanecem por décadas. Outras atravessam nossa história rapidamente, mas deixam ensinamentos que permanecem.
Tenho fé e acredito que muitos desses encontros possuem propósitos que somente compreenderemos mais tarde.
Por isso, procuro agradecer por quem chega sem transformar em ressentimento a partida de quem decidiu seguir outro caminho.
Nem toda despedida é perda.
Às vezes, ela apenas anuncia que um ciclo terminou e outro precisa começar.
Tenha fé para receber quem chega e sabedoria para compreender quem parte.
9. Não confunda dificuldade com derrota.
Quando as coisas ficam difíceis, nossa primeira reação pode ser imaginar que escolhemos o caminho errado.
Nem sempre.
Projetos relevantes enfrentam resistência. Mudanças incomodam. Quem propõe algo novo inevitavelmente encontra dúvidas, críticas e obstáculos.
A dificuldade pode ser um aviso para corrigirmos a rota. Mas também pode ser simplesmente parte da própria caminhada.
É preciso discernimento para saber a diferença.
Obstáculos não decretam derrotas. Muitas vezes apenas testam a força de nossos propósitos.
10. Tenha coragem para fazer o que precisa ser feito.
Uma das maiores armadilhas da liderança é a necessidade de aprovação.
Quem deseja agradar a todos dificilmente conseguirá liderar.
Isso não significa arrogância. Ao contrário: devemos ouvir, dialogar, admitir erros e respeitar opiniões diferentes.
Mas haverá momentos em que a decisão correta será impopular.
Haverá ocasiões em que dizer “não” será mais responsável do que dizer “sim”.
Respeite as pessoas, mas não abandone seus princípios apenas para ser aceito por elas.
11. Aceite que o crescimento muda as relações.
Quando nossos objetivos mudam, nossas prioridades também mudam.
Passamos a utilizar o tempo de maneira diferente. Selecionamos melhor os ambientes que frequentamos. Algumas conversas deixam de fazer sentido. Novas pessoas aparecem.
Isso faz parte do crescimento.
Não significa considerar-se melhor do que ninguém. Significa apenas compreender que cada pessoa possui sua própria caminhada.
Alguns seguirão conosco. Outros tomarão rumos diferentes.
E está tudo bem.
Não diminua seus sonhos apenas para continuar cabendo nos mesmos lugares.
12. Cresça, mas faça outras pessoas crescerem com você.
Este talvez seja, para mim, o mais importante dos doze princípios.
Conquistar é importante.
Construir uma carreira, desenvolver projetos, obter reconhecimento e alcançar posições de liderança são realizações legítimas.
Mas existe uma pergunta que considero ainda maior:
Quantas pessoas cresceram porque, em algum momento, cruzaram o nosso caminho?
Quantas oportunidades criamos?
Quantas portas abrimos?
Quantos profissionais incentivamos?
Quantas pessoas apresentamos umas às outras?
Quantos conhecimentos compartilhamos?
É exatamente aqui que encontro uma das razões de existir de uma instituição como a ABA.
Uma associação não deveria servir apenas para reunir pessoas. Deve aproximá-las, desenvolvê-las, dar-lhes visibilidade, criar relacionamentos e produzir oportunidades.
E uma liderança institucional não deveria existir para produzir seguidores. Deveria contribuir para formar novos líderes.
Por isso, entre todos esses princípios, há uma frase que gostaria que se tornasse parte da nossa cultura:
Crescer sozinho é conquista. Crescer fazendo outros crescerem é liderança.
O que ficará depois de nós?
Cargos terminam.
Mandatos terminam.
Títulos desaparecem dos cartões de visita.
Projetos são substituídos por outros projetos.
Até as instituições, para permanecerem relevantes, precisam aprender continuamente a se renovar.
No final, talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer sobre nossa passagem por uma empresa, profissão, associação ou simplesmente pela vida seja muito simples:
O que ficou melhor porque eu passei por aqui?
Se criamos oportunidades, aproximamos pessoas, compartilhamos conhecimento, defendemos princípios, ajudamos alguém a acreditar novamente em si mesmo ou abrimos uma porta que continuará aberta depois de nossa partida, então alguma coisa permaneceu.
É isso que chamo de legado.
Não é ter o nome lembrado.
É deixar valores que continuem sendo praticados mesmo quando o nosso nome já não precisar ser mencionado.
Trabalhe.
Seja grato.
Tenha fé.
Cultive relações verdadeiras.
Saiba permanecer e saiba partir.
Proteja seus princípios.
Persiga seus objetivos.
E, quando finalmente chegar mais longe, não se esqueça de olhar para trás.
Talvez haja alguém esperando apenas que você estenda a mão.
Esdras Dantas de Souza
Advogado e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)