Uma reflexão sobre a brevidade da vida, a ilusão das conquistas materiais e o verdadeiro legado que deixaremos neste mundo.
Por Esdras Dantas de Souza
Há uma verdade sobre a vida que todos conhecemos, mas sobre a qual poucos gostam de refletir: um dia, tudo aquilo que hoje chamamos de nosso pertencerá a outras pessoas.
A casa que construímos com tanto sacrifício terá novos moradores. O carro que compramos com tanta satisfação será conduzido por outras mãos. As roupas que escolhemos cuidadosamente serão doadas, vendidas ou esquecidas em algum armário. Os móveis, os objetos, os documentos, as fotografias e tantas outras coisas que guardamos com carinho terão destinos que jamais conheceremos.
Até aquela cadeira em que costumamos sentar será ocupada por outra pessoa.
E nós não estaremos mais aqui.
Talvez alguém ainda se lembre de nossas histórias. Talvez nossos filhos e netos conservem algumas fotografias. Talvez nosso nome seja mencionado em alguma conversa de família, acompanhado de uma lembrança carinhosa.
Mas o tempo continuará passando.
Novas gerações chegarão. Outras pessoas ocuparão nossos espaços. Novas histórias serão escritas. E aquilo que hoje parece tão importante poderá, um dia, não significar absolutamente nada para quem vier depois de nós.
É assim que a vida acontece. E não há riqueza, autoridade, inteligência ou prestígio capazes de modificar essa realidade.
A ilusão de que temos todo o tempo do mundo
Desde cedo, somos ensinados a conquistar.
Precisamos estudar, trabalhar, construir uma carreira, adquirir patrimônio, alcançar estabilidade financeira e conquistar reconhecimento.
Nada disso é errado. Pelo contrário. O trabalho dignifica, o conhecimento transforma, a prosperidade proporciona segurança e as conquistas representam, muitas vezes, o resultado de uma vida inteira de dedicação.
O problema começa quando transformamos essas conquistas na razão principal de nossa existência.
Passamos a acreditar que seremos felizes quando comprarmos uma casa melhor, quando tivermos mais dinheiro, quando alcançarmos determinado cargo ou quando conquistarmos o reconhecimento que tanto desejamos.
E assim vamos adiando a felicidade.
Adiamos uma visita aos pais porque temos compromissos. Adiamos uma conversa com os filhos porque precisamos trabalhar. Adiamos um abraço porque estamos preocupados. Adiamos uma reconciliação porque o orgulho nos impede de dar o primeiro passo.
Adiamos até mesmo o descanso, como se nossa presença fosse indispensável ao funcionamento do mundo.
Mas há algo que esquecemos com frequência:
Enquanto fazemos planos para viver amanhã, a vida está acontecendo hoje.
E o amanhã, por mais que o desejemos, nunca nos foi prometido.
Um dia, alguém ocupará o nosso lugar
Pense, por alguns instantes, no ambiente em que você trabalha.
Talvez exista uma sala com seu nome na porta. Uma mesa organizada ao seu gosto. Uma cadeira que você ocupa há muitos anos. Pessoas que dependem de suas decisões. Compromissos que parecem impossíveis de serem realizados sem sua presença.
Agora imagine esse mesmo ambiente algum tempo depois de sua partida.
Outra pessoa estará sentada naquela cadeira. Outros documentos estarão sobre a mesa. Novas decisões serão tomadas. Seu nome poderá permanecer por algum tempo na memória dos colegas, mas a rotina continuará.
Isso acontecerá nas empresas, nos escritórios, nas universidades, nas instituições e até mesmo nas organizações que ajudamos a construir.
Os cargos que hoje ocupamos serão exercidos por outras pessoas. As funções que desempenhamos terão novos responsáveis. As homenagens que recebemos serão substituídas por outras celebrações.
Os cargos passam. Os títulos perdem importância. O poder termina.
E, diante dessa realidade, surge uma pergunta que considero essencial:
Se tudo isso é passageiro, por que tantas vezes permitimos que o orgulho, a vaidade e a ambição nos afastem das pessoas e dos valores que realmente importam?
Quantas amizades são destruídas por disputas de poder?
Quantas famílias se afastam por questões patrimoniais?
Quantas pessoas sacrificam a saúde, a paz e os relacionamentos na tentativa de acumular riquezas que jamais conseguirão levar consigo?
Talvez uma das maiores demonstrações de sabedoria seja compreender, ainda em vida, que não somos proprietários definitivos de nada.
Somos, por algum tempo, responsáveis por aquilo que Deus nos permite administrar.
O dinheiro pode comprar muitas coisas, mas não compra mais um dia de vida
O dinheiro tem sua importância. Seria ingenuidade negar isso.
Ele proporciona conforto, segurança, tratamento médico, educação e oportunidades. Quando utilizado com responsabilidade, pode melhorar não apenas nossa existência, mas também a vida de muitas pessoas.
Entretanto, há limites que nenhuma fortuna consegue ultrapassar.
O dinheiro pode proporcionar uma excelente residência, mas não garante a harmonia de uma família.
Pode pagar tratamentos médicos sofisticados, mas não assegura a cura.
Pode reunir pessoas em uma grande festa, mas não compra amizades verdadeiras.
Pode proporcionar conforto na velhice, mas não devolve os anos que passaram.
E, quando chegar o momento inevitável da despedida, nenhuma conta bancária, nenhum patrimônio e nenhum título será capaz de negociar com o tempo.
Na última viagem, não haverá espaço para malas, escrituras, cartões bancários ou certificados de propriedade.
Tudo ficará.
O que levaremos, segundo nossa fé, pertence a uma dimensão que não se mede em dinheiro nem se registra em cartório.
Por isso, a pergunta mais importante não deveria ser apenas quanto conseguimos acumular, mas o que fizemos com aquilo que recebemos.
Utilizamos nossas conquistas apenas para satisfazer nossos desejos?
Ou também as transformamos em instrumentos para aliviar o sofrimento, oferecer oportunidades e melhorar a vida de outras pessoas?
Há pessoas que partem, mas continuam vivendo dentro de nós
Todos conhecemos alguém cuja presença deixou marcas profundas em nossa existência.
Pode ter sido um pai, uma mãe, um professor, um amigo, um colega de profissão ou até mesmo uma pessoa que encontramos uma única vez.
Talvez essa pessoa não fosse rica. Talvez nunca tenha ocupado um cargo importante. Talvez seu nome jamais tenha aparecido em jornais ou recebido homenagens públicas.
Mas ela fez alguma coisa que nunca esquecemos.
Ofereceu ajuda quando estávamos em dificuldade.
Acreditou em nós quando ninguém acreditava.
Estendeu a mão quando estávamos prestes a desistir.
Compartilhou um conhecimento, abriu uma porta, ofereceu uma oportunidade ou simplesmente nos ouviu quando mais precisávamos.
Essas pessoas nos ensinam algo extraordinário:
A verdadeira grandeza de uma existência não está na quantidade de bens acumulados, mas na profundidade do bem que conseguimos realizar.
Existem pessoas que deixam fortunas e são rapidamente esquecidas.
Outras deixam poucos bens materiais, mas permanecem vivas, durante gerações, no coração daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-las.
Isso acontece porque o amor, a generosidade e o exemplo possuem uma força que ultrapassa a própria existência física.
Uma palavra de incentivo pode mudar o destino de alguém.
Uma oportunidade oferecida no momento certo pode transformar uma família inteira.
Um gesto de solidariedade pode devolver a esperança a quem já não acreditava no futuro.
E quem pratica esses gestos talvez nunca venha a conhecer toda a extensão do bem que realizou.
Há sementes que plantamos nesta vida cujos frutos jamais veremos. Mas isso não diminui a importância de plantá-las.
O que estamos fazendo com o tempo que ainda nos resta?
Essa é a pergunta que gostaria de deixar a cada pessoa que lê esta reflexão.
Não sabemos quantos anos ainda teremos pela frente.
Alguns poderão viver muitas décadas. Outros terão menos tempo do que imaginam.
A única certeza é que cada dia vivido representa um dia a menos em nossa caminhada.
Isso não deve ser motivo de tristeza ou desespero.
Deve ser um convite à consciência.
Ainda podemos telefonar para alguém de quem sentimos saudade.
Ainda podemos pedir perdão por uma palavra injusta.
Ainda podemos abandonar ressentimentos que carregamos há anos.
Ainda podemos agradecer a quem nos ajudou.
Ainda podemos compartilhar conhecimentos, oferecer oportunidades e contribuir para que outras pessoas tenham uma vida melhor.
Ainda podemos fazer o bem, mesmo quando ninguém está olhando.
Não precisamos esperar pela aposentadoria, pela estabilidade financeira ou pelo momento ideal para começar.
O momento de fazer o bem é agora. Porque o tempo que temos é o único tempo sobre o qual podemos agir.
E fazer o bem não exige necessariamente dinheiro.
Às vezes, exige apenas atenção.
Às vezes, exige paciência.
Às vezes, exige renunciar ao orgulho.
Às vezes, exige dedicar alguns minutos a alguém que precisa ser ouvido.
O mundo está cheio de pessoas que possuem quase tudo materialmente, mas sentem falta de alguém que lhes ofereça um pouco de carinho, respeito e compreensão.
A maior herança não está no patrimônio que deixamos
Ao longo da vida, aprendi a valorizar o trabalho, a responsabilidade, o conhecimento e as conquistas profissionais.
Mas também compreendi que nenhuma realização pessoal estará completa se não produzir algum benefício para outras pessoas.
De que vale conquistar reconhecimento se, para alcançá-lo, precisamos humilhar aqueles que caminham conosco?
De que vale exercer autoridade se não a utilizamos para servir?
De que vale acumular conhecimento se nos recusamos a compartilhá-lo?
De que vale alcançar o sucesso se não somos capazes de ajudar alguém a vencer suas próprias dificuldades?
É por isso que acredito que a maior herança que podemos deixar não é aquilo que colocamos nas mãos de nossos filhos, amigos e semelhantes, mas aquilo que conseguimos plantar em seus corações.
O patrimônio pode ser dividido.
Os imóveis podem ser vendidos.
As empresas podem mudar de proprietários.
Os objetos podem desaparecer.
Mas um exemplo de honestidade, uma lição de generosidade, um gesto de amor e uma oportunidade oferecida podem atravessar gerações.
Quem ajuda alguém a crescer participa, de alguma maneira, de todas as conquistas que essa pessoa poderá alcançar.
Quem ensina também permanece naquilo que o outro aprendeu.
Quem acolhe deixa uma lembrança que muitas vezes resiste ao tempo.
E quem transforma a vida de alguém deixa uma parte de si no mundo.
Quando Deus nos chamar pelo nome
Como homem de fé, acredito que nossa existência não se resume aos anos que passamos nesta Terra.
A vida é um presente de Deus. E, como todo presente precioso, deve ser recebida com gratidão e vivida com responsabilidade.
Não sabemos quando chegará o momento de nossa partida.
Mas sabemos que ele chegará.
E, quando esse dia vier, talvez descubramos que muitas das coisas que considerávamos indispensáveis eram, na verdade, passageiras.
As preocupações que nos tiraram o sono.
As disputas que alimentaram nosso orgulho.
As ofensas que nos recusamos a perdoar.
Os bens que desejamos possuir a qualquer preço.
Tudo isso perderá sua importância.
O que verdadeiramente terá valor será o amor que conseguimos oferecer, a dignidade com que procuramos viver, a fé que sustentou nossos passos e o bem que tivemos a oportunidade de praticar.
A fé cristã nos recorda, nas palavras de Jesus:
“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Mateus 6:21)
Talvez seja essa uma das maiores lições que podemos aprender enquanto ainda temos tempo.
Precisamos escolher onde colocamos nosso coração.
Nas coisas que passam?
Ou nos valores que permanecem?
Antes que a nossa estrada chegue ao fim
Um dia, nossa casa terão outros moradores.
Nosso carro terá outro motorista.
Nossa cadeira será ocupada por outra pessoa.
Nossos compromissos serão assumidos por alguém.
O mundo continuará sua caminhada.
E talvez, com o passar das gerações, nosso nome deixe de ser pronunciado.
Mas existe algo que ainda podemos decidir.
Podemos escolher como queremos ser lembrados por aqueles que tiveram suas vidas tocadas pela nossa presença.
Não precisamos ser lembrados como os mais ricos, os mais poderosos ou os mais importantes.
Que sejamos lembrados como pessoas que souberam amar.
Que tivemos coragem de pedir perdão.
Que ajudamos sem exigir recompensas.
Que compartilhamos o que aprendemos.
Que não fechamos as portas para quem precisava de uma oportunidade.
Que tratamos com respeito tanto os poderosos quanto os humildes.
Que procuramos tornar a caminhada dos outros um pouco menos difícil.
E, sobretudo, que não desperdiçamos a vida tentando provar ao mundo que éramos superiores a alguém.
Porque, no fim, todos caminhamos em direção ao mesmo horizonte.
Alguns chegam antes. Outros, depois.
Mas ninguém permanece para sempre nesta estrada.
Por isso, enquanto ainda podemos caminhar, que nossos passos tenham propósito.
Enquanto ainda podemos falar, que nossas palavras levem esperança.
Enquanto ainda podemos abraçar, que nossos braços ofereçam acolhimento.
Enquanto ainda podemos ajudar, que nossas mãos não permaneçam fechadas.
E quando Deus nos chamar pelo nome, que tenhamos a serenidade de saber que não vivemos apenas para nós mesmos.
Que tenhamos deixado exemplos, oportunidades, amizades, gestos de bondade e histórias de amor.
Que, mesmo quando nosso nome já não for lembrado, alguma coisa boa que fizemos continue produzindo frutos na vida de outras pessoas.
Porque essa é, talvez, uma das formas mais bonitas de permanecer neste mundo depois que partimos.
A vida passa. Os cargos passam. As riquezas mudam de mãos. Mas o bem que fazemos pode continuar vivendo naqueles que ajudamos.
E, se me permitem encerrar com uma última reflexão, gostaria de lhes fazer uma pergunta:
Se Deus nos chamasse hoje, o que ficaria de nós além daquilo que possuímos?
Pense nisso.
E, se possível, não deixe para amanhã o bem que você ainda pode fazer hoje.
Esdras Dantas de Souza
Advogado, professor universitário, presidente e fundador da Associação Brasileira de Advogados — ABA. Ex-presidente da OAB/DF e ex-diretor do Conselho Federal da OAB.