A UMA SEMANA DO SEGUNDO TURNO: O BRASIL PRECISA ESCOLHER MAIS DO QUE UM PRESIDENTE

rimeiro turno mostrou novamente a dimensão da democracia brasileira. Mais de 158,7 milhões de eleitores estavam aptos a votar nas eleições gerais de 2026. Cerca de 125,2 milhões compareceram às urnas, segundo a Justiça Eleitoral.

São brasileiros de todas as regiões, classes sociais, profissões, religiões, idades e formas de compreender o país.

Naturalmente, eles não pensam da mesma maneira.

E nem deveriam.

Democracia não significa uniformidade de pensamento. Ao contrário: uma democracia existe justamente porque pessoas diferentes podem defender projetos diferentes de sociedade e, ainda assim, reconhecer umas às outras como cidadãos igualmente legítimos.

Esse princípio simples corre o risco de ser esquecido quando uma eleição se transforma em uma batalha moral entre dois lados.

O adversário político passa a ser tratado como inimigo.

A divergência deixa de ser respondida com argumento e passa a ser combatida com agressão.

Famílias se dividem. Amizades são interrompidas. Relações profissionais são contaminadas pela intolerância.

E as redes sociais, estruturadas para premiar atenção e reação, frequentemente amplificam o conflito.

O resultado pode ser perigoso: começamos a acreditar que existem dois Brasis.

Não existem.

Existe um único Brasil — formado por pessoas que têm o direito de pensar de maneiras diferentes.

Antes de escolher um candidato, escolha os fatos

A última semana de uma eleição presidencial costuma ser marcada pela intensificação da campanha.

Discursos ficam mais duros. Vídeos circulam rapidamente. Acusações surgem. Pesquisas são divulgadas. Cortes de entrevistas, declarações antigas e conteúdos emocionais disputam segundos da atenção do eleitor.

É justamente quando aumenta o barulho que o cidadão precisa aumentar o cuidado.

A Justiça Eleitoral mantém disponível o DivulgaCandContas, onde o eleitor pode consultar informações sobre as candidaturas e os respectivos planos de governo.

Também existe um sistema específico para receber alertas sobre conteúdos falsos, enganosos ou descontextualizados que possam comprometer a integridade do processo eleitoral. Até 15 de outubro, o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral havia recebido 16.775 apontamentos desde o início da propaganda eleitoral.

Isso demonstra a dimensão de outro desafio contemporâneo.

Nunca tivemos tanta informação disponível.

Mas quantidade de informação não significa necessariamente qualidade de informação.

Por isso, antes de compartilhar, é preciso verificar.

Antes de acreditar, comparar.

Antes de condenar, compreender o contexto.

E antes de votar, conhecer propostas.

O eleitor consciente não terceiriza sua decisão para um vídeo de poucos segundos, para uma mensagem recebida em um grupo ou para o algoritmo de uma rede social.

Ele procura informação, compara fontes e forma sua própria convicção.

Democracia também significa aceitar que podemos perder

Existe uma dimensão da democracia sobre a qual pouco se fala durante as campanhas.

Democracia não é apenas o direito de tentar vencer.

É também o compromisso de reconhecer a possibilidade de perder.

Quem participa de uma eleição democrática aceita previamente uma regra elementar: a vontade da maioria definirá quem governará, dentro dos limites estabelecidos pela Constituição.

Isso vale para candidatos.

Vale para partidos.

E vale para eleitores.

Naturalmente, aceitar o resultado de uma eleição não significa concordar com o governo eleito.

A oposição é legítima.

A crítica é necessária.

A fiscalização é indispensável.

Manifestações políticas fazem parte da democracia.

O que não pode desaparecer é o reconhecimento das regras constitucionais que permitem que governo e oposição disputem ideias dentro do mesmo sistema democrático.

Hoje alguém vence.

Amanhã poderá perder.

É justamente essa possibilidade de alternância que distingue uma democracia de regimes nos quais as eleições são apenas cerimônias destinadas a confirmar quem já detém o poder.

O dia 26 também importa

Há uma pergunta que deveria acompanhar todo brasileiro nesta última semana:

O que acontecerá no dia seguinte à eleição?

Na segunda-feira, 26 de outubro, milhões de brasileiros continuarão acordando cedo.

Professores entrarão em salas de aula.

Médicos atenderão pacientes.

Advogados defenderão direitos.

Empresários abrirão suas empresas.

Trabalhadores ocuparão seus postos.

Pais levarão filhos à escola.

Os problemas nacionais também continuarão esperando soluções.

Emprego, renda, segurança pública, educação, saúde, infraestrutura, desenvolvimento econômico, equilíbrio fiscal, proteção social e funcionamento das instituições não desaparecerão quando terminar a apuração.

O vencedor receberá enorme responsabilidade.

O derrotado continuará representando milhões de brasileiros que pensam de maneira diferente.

E o país terá de continuar.

É por isso que uma democracia madura precisa saber fazer algo aparentemente simples, mas politicamente extraordinário:

disputar intensamente uma eleição sem destruir a possibilidade de convivência depois dela.

“No dia seguinte, continuaremos sendo brasileiros”

Para o presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA), Esdras Dantas de Souza, esta é uma reflexão que precisa ultrapassar as preferências eleitorais.

“A democracia não exige que pensemos da mesma maneira. Ela exige algo mais difícil e mais importante: que saibamos conviver com nossas diferenças, respeitar a vontade popular e continuar defendendo as instituições. No dia seguinte à eleição, independentemente do resultado, continuaremos sendo brasileiros e responsáveis pelo mesmo país.”

A afirmação toca em um ponto essencial.

O voto não encerra a responsabilidade do cidadão.

Na verdade, inaugura outra etapa dela.

Depois de escolher seus representantes, cabe à sociedade acompanhar, cobrar, fiscalizar e participar.

Nenhum governante recebe das urnas autorização para agir acima da Constituição.

E nenhum eleitor perde o direito de discordar porque seu candidato foi derrotado.

A Constituição permanece sendo o espaço comum de todos.

O país precisa reconstruir pontes

Talvez uma das grandes tarefas brasileiras depois destas eleições seja reconstruir a capacidade de conversar.

Discordar sem odiar.

Criticar sem desumanizar.

Defender convicções sem transformar o outro em inimigo.

Isso não significa abandonar princípios nem relativizar diferenças profundas.

Significa apenas compreender que a democracia não foi criada para sociedades nas quais todos concordam.

Ela existe justamente para permitir que pessoas que discordam profundamente consigam viver sob as mesmas regras.

O Brasil precisará dessa maturidade.

Precisará de instituições fortes.

De imprensa responsável.

De um Congresso consciente de suas atribuições.

De um Judiciário independente e submetido aos limites constitucionais.

De governo responsável.

De oposição democrática.

E, sobretudo, de cidadãos que compreendam que liberdade política pressupõe responsabilidade política.

Uma escolha que começa, mas não termina, na urna

No próximo domingo, cada eleitor estará sozinho diante da urna.

Naquele instante, não haverá comentarista, influenciador, candidato, jornalista, amigo ou familiar dentro da cabine.

Haverá apenas uma pessoa e sua consciência.

Esse talvez seja um dos momentos mais poderosos de uma democracia.

O voto de quem possui milhões de seguidores valerá exatamente o mesmo que o voto de quem não possui nenhum.

O voto do empresário terá o mesmo peso do voto de seu funcionário.

O voto do governante valerá tanto quanto o voto do cidadão que nunca ocupou cargo público.

Por alguns segundos, diante da urna, a República realiza uma de suas promessas mais profundas:

somos politicamente iguais.

Por isso, o voto merece reflexão.

O Brasil escolherá um presidente em 25 de outubro.

Mas poderá escolher algo ainda maior.

Poderá escolher se continuará transformando diferenças políticas em muros ou se começará novamente a construir pontes.

Poderá escolher entre a intolerância e o diálogo.

Entre a desinformação e os fatos.

Entre a política do inimigo e a política do adversário.

Entre uma democracia vivida apenas no dia da eleição e uma democracia praticada todos os dias.

Quando as urnas forem fechadas e os votos contados, haverá vencedores e derrotados.

Mas há uma vitória que deveria pertencer a todos:

a de um país capaz de realizar suas escolhas, respeitar suas diferenças e seguir adiante em liberdade.

Porque a eleição termina.

O Brasil continua.

E a democracia também precisa continuar.

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