DEPOIS DAS URNAS: O BRASIL CONSEGUIRÁ FAZER UM SEGUNDO TURNO SEM TRANSFORMAR ADVERSÁRIOS EM INIMIGOS?

Com a eleição presidencial definida entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil entra em três semanas decisivas. Mais do que escolher o próximo presidente, o país será novamente desafiado a demonstrar que divergência política, liberdade de expressão e respeito às instituições podem conviver dentro da democracia.

O Brasil acordou depois do primeiro turno diante de uma eleição presidencial apertada — e de um desafio que ultrapassa os nomes que estarão nas urnas.

Com 99,99% das seções apuradas na madrugada de segunda-feira, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 45,16%. Os dois disputarão o segundo turno da eleição presidencial. Tribunal Superior Eleitoral

A diferença estreita indica que as próximas semanas serão de intensa disputa política.

Isso é natural.

Eleições existem justamente para que projetos diferentes de país sejam apresentados, confrontados e submetidos à decisão popular. Campanhas vigorosas, críticas, debates duros e fiscalização dos candidatos fazem parte do processo democrático.

O problema começa quando o adversário deixa de ser visto como alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo a ser destruído.

É nesse ponto que a eleição de 2026 apresenta ao Brasil uma pergunta que talvez seja tão importante quanto aquela que estará na urna:

conseguiremos discordar sem romper os vínculos mínimos que permitem a convivência democrática?

DEMOCRACIA NÃO EXIGE CONSENSO

Existe uma ideia equivocada de que uma democracia saudável seria aquela em que todos conseguem chegar a algum tipo de consenso.

Não é assim.

A própria Constituição brasileira estabelece o pluralismo político entre os fundamentos da República. Também afirma que todo poder emana do povo e consagra o voto direto e secreto como instrumento da soberania popular. Planalto

Pluralismo significa reconhecer algo elementar: em uma sociedade com mais de 200 milhões de habitantes, haverá profundas diferenças sobre economia, segurança, costumes, meio ambiente, políticas sociais e o papel do Estado.

A democracia não elimina essas diferenças.

Ela cria regras para que possamos conviver apesar delas.

É perfeitamente legítimo que um eleitor considere determinado projeto melhor para o Brasil e trabalhe democraticamente por sua vitória. É igualmente legítimo que outro brasileiro faça exatamente o mesmo pelo projeto adversário.

O voto de um não diminui a cidadania do outro.

Essa compreensão será especialmente importante nas próximas semanas.

A FRONTEIRA PERIGOSA ENTRE ADVERSÁRIO E INIMIGO

Toda disputa eleitoral produz adversários. Uma democracia começa a adoecer, entretanto, quando produz inimigos.

O adversário precisa ser derrotado eleitoralmente.

O inimigo, na lógica da intolerância, precisa ser eliminado, silenciado ou excluído.

A diferença parece apenas semântica, mas é profunda.

Quando a política passa a funcionar segundo a lógica do inimigo, familiares deixam de conversar, amizades são rompidas, divergências tornam-se ofensas pessoais e qualquer informação passa a ser julgada não pela sua veracidade, mas por beneficiar ou prejudicar “o nosso lado”.

As redes sociais potencializam esse fenômeno.

Algoritmos favorecem conteúdos capazes de provocar reação, enquanto vídeos curtos, recortes descontextualizados e mensagens emocionais podem circular muito mais rapidamente do que explicações complexas.

Nesse ambiente, cidadãos também carregam responsabilidade.

Antes de compartilhar uma acusação contra um candidato, uma instituição ou qualquer pessoa, existe uma pergunta simples que vale a pena fazer:

isso é verdadeiro?

Democracia também exige responsabilidade no exercício da liberdade.

PRIMEIRO TURNO TRANSCORREU DENTRO DA NORMALIDADE

Há um dado positivo que não deveria desaparecer no meio da disputa política.

Segundo o balanço apresentado pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, o primeiro turno ocorreu com segurança e normalidade. Observadores internacionais citados pelo TSE também registraram avaliações preliminares positivas sobre o processo. Tribunal Superior Eleitoral

O Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral registrou 2.604 denúncias relacionadas especificamente à integridade do processo eleitoral e à possível supressão do voto entre 1º de agosto e a véspera da eleição. No período equivalente de 2022 haviam sido 18.487 — redução aproximada de 86%, segundo o Tribunal. Tribunal Superior Eleitoral

Isso não significa ausência de problemas. O Ministério da Justiça e Segurança Pública registrou 907 crimes eleitorais no país, segundo os números divulgados pelo TSE. Tribunal Superior Eleitoral

Significa, porém, que milhões de brasileiros puderam entrar em uma seção eleitoral, escolher seus representantes e voltar para casa enquanto as instituições processavam os votos.

Parece algo rotineiro.

Não é.

É uma conquista democrática que precisa ser preservada.

O PAPEL DOS DOIS CANDIDATOS

Flávio Bolsonaro e Lula carregam, a partir de agora, responsabilidade maior do que simplesmente convencer eleitores.

Suas palavras podem influenciar milhões de pessoas.

É legítimo que apontem erros, confrontem propostas, questionem administrações, apresentem números e tentem demonstrar por que consideram seu projeto melhor.

O que se espera de qualquer candidato à Presidência, entretanto, é que a disputa permaneça dentro das regras constitucionais e eleitorais.

E isso vale igualmente para os dois lados.

Uma democracia madura não pode possuir uma regra para o candidato de quem gostamos e outra para aquele que rejeitamos.

O compromisso democrático só demonstra seu verdadeiro valor quando protege também o direito de quem pensa diferente.

AS INSTITUIÇÕES TAMBÉM SERÃO TESTADAS

A responsabilidade não pertence apenas aos candidatos.

Justiça Eleitoral, Ministério Público, imprensa, plataformas digitais, partidos políticos, forças de segurança e demais instituições serão novamente submetidos ao escrutínio público.

A atuação institucional precisa combinar firmeza no cumprimento da lei com prudência, transparência e fundamentação.

Combater ilícitos eleitorais não significa eliminar a crítica política.

Proteger a liberdade de expressão não significa conceder imunidade para a prática de crimes.

Fiscalizar as redes sociais não pode significar estabelecer uma tutela estatal sobre toda divergência.

E questionar decisões de autoridades, dentro dos limites da lei, também faz parte da democracia.

O equilíbrio é difícil justamente porque os valores envolvidos são importantes.

QUEM VENCER GOVERNARÁ TAMBÉM PARA QUEM PERDER

No dia 25 de outubro, quando está previsto o segundo turno, haverá novamente vencedores e derrotados.

Mas no dia seguinte continuará existindo apenas um Brasil.

Quem vencer receberá legitimidade para governar — não autorização para ignorar os milhões de brasileiros que escolheram o adversário.

Quem perder terá direito de continuar fazendo oposição, fiscalizando, criticando e tentando convencer a sociedade de suas ideias.

Essa alternância entre governo e oposição é uma das engrenagens fundamentais da democracia.

A urna decide quem governa.

Ela não decide quem tem direito de pertencer ao país.

É por isso que talvez a maior vitória democrática de 2026 não seja apenas saber quem ocupará o Palácio do Planalto.

Será chegar ao final de uma campanha acirrada e demonstrar que brasileiros capazes de votar de maneiras completamente diferentes continuam reconhecendo uns nos outros a mesma condição de cidadãos.

A democracia não nos pede que abandonemos nossas convicções.

Não exige neutralidade.

Não exige silêncio.

Muito menos exige que pensemos igual.

Exige algo simultaneamente mais simples e mais difícil: que saibamos conviver quando pensamos diferente.

Depois das urnas do primeiro turno, essa talvez seja a principal escolha que o Brasil terá de fazer nas próximas três semanas.

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