ESDRAS DANTAS: METACOGNIÇÃO E LIDERANÇA — ANTES DE LIDERAR OS OUTROS, APRENDA A OBSERVAR A SI MESMO

Por Esdras Dantas de Souza —

Há uma pergunta que todo líder deveria fazer com frequência:

“O que eu preciso perceber em mim para me tornar um líder melhor para os outros?”

Parece uma pergunta simples. Não é.

Estamos acostumados a observar o comportamento das pessoas que lideramos. Percebemos quem participa, quem se afasta, quem demonstra entusiasmo, quem entrega resultados, quem precisa melhorar.

Mas existe uma dimensão da liderança sobre a qual talvez precisemos falar mais: a capacidade do líder de observar a si próprio.

Na psicologia e na educação, existe um conceito chamado metacognição.

Em linguagem simples, metacognição significa pensar sobre o próprio pensamento.

É a capacidade de observar como pensamos, como aprendemos, como interpretamos uma situação, como tomamos decisões e como reagimos diante das dificuldades.

Aplicada à liderança, ela nos convida a substituir algumas certezas por perguntas.

E líderes que aprendem a fazer boas perguntas a si mesmos começam a liderar de maneira diferente.

QUANDO O PROBLEMA PARECE ESTAR SEMPRE NOS OUTROS

Imagine um dirigente que reúne sua equipe e percebe pouca participação.

Sua primeira conclusão pode ser:

“Essas pessoas não estão comprometidas.”

Talvez esteja correto.

Mas um líder que pratica a metacognição acrescentará outras perguntas:

“Será que estou criando espaço para que elas participem?”

“Minha reunião é realmente interessante?”

“Estou ouvindo ou apenas falando?”

“As pessoas compreenderam claramente a missão que receberam?”

“Elas sabem que são importantes para este projeto?”

“Eu as procuro somente quando preciso de alguma coisa?”

Percebam a diferença.

Metacognição não significa assumir que o líder está errado.

Significa admitir que ele também faz parte da realidade que está avaliando.

Isso é maturidade de liderança.

NA ABA, LIDERAR NÃO É APENAS OCUPAR UM CARGO

Esse conceito tem especial importância para nós, na Associação Brasileira de Advogados.

A ABA possui diretorias, comissões, coordenações e inúmeras posições de liderança.

Mas precisamos repetir constantemente uma convicção:

cargo não transforma ninguém em líder.

A nomeação concede uma função.

A liderança precisa ser construída.

E ela se constrói pela capacidade de mobilizar pessoas, ouvir, acolher, orientar, estimular participação, criar oportunidades e fazer com que outras pessoas também cresçam.

É por isso que esperamos de nossos dirigentes algo além da organização administrativa de suas estruturas.

Queremos formadores de pessoas.

Queremos líderes capazes de olhar para uma advogada ou um advogado que acabou de chegar e perguntar:

“Como posso ajudá-lo a ocupar seu espaço?”

Essa mudança é fundamental para a cultura que estamos construindo.

O LÍDER PRECISA APRENDER A SE OBSERVAR

Um bom exercício de liderança é desenvolver aquilo que poderíamos chamar de observador interno.

Antes de reagir a uma situação, pergunte:

“Por que estou reagindo dessa maneira?”

Antes de concluir que alguém não está comprometido:

“Tenho elementos suficientes para chegar a essa conclusão?”

Antes de criticar:

“Eu expliquei claramente o que esperava?”

Antes de interromper alguém:

“Estou realmente ouvindo ou apenas esperando minha vez de falar?”

Antes de tomar uma decisão:

“Estou decidindo com base nos fatos ou apenas confirmando uma opinião que já possuía?”

Essas perguntas parecem pequenas.

Mas podem transformar relacionamentos.

O PERIGO DAS CERTEZAS

Quanto mais tempo exercemos posições de liderança, maior pode ser o risco de acreditar que nossa experiência nos permite compreender rapidamente todas as situações.

Experiência é extraordinariamente importante.

Mas experiência sem reflexão também pode produzir automatismos.

Começamos a responder antes de ouvir.

Classificamos pessoas rapidamente.

Repetimos soluções porque funcionaram no passado.

Confundimos convicção com infalibilidade.

O líder metacognitivo faz algo diferente.

Ele consegue dizer:

“Talvez eu precise olhar novamente.”

Essa frase não diminui sua autoridade.

Ao contrário.

Demonstra segurança suficiente para reconhecer que aprender continua sendo necessário.

LIDERANÇA TAMBÉM É APRENDIZAGEM

Na ABA, estamos construindo uma cultura segundo a qual liderança não significa destaque pessoal.

Liderança significa serviço.

Um presidente de comissão não deve perguntar apenas:

“Como faço minha comissão crescer?”

Pode perguntar:

“Quantas pessoas estão crescendo dentro da minha comissão?”

Um diretor estadual não deve avaliar seu trabalho apenas pelo número de eventos realizados.

Pode perguntar:

“Quantos associados passaram a participar mais por causa da nossa atuação?”

Um coordenador não deveria pensar apenas:

“Minha equipe cumpriu o que determinei?”

Deveria também perguntar:

“Minha maneira de liderar ajudou essas pessoas a se desenvolver?”

Essa é uma mudança profunda.

Porque desloca o centro da liderança do eu para o nós.

UM MÉTODO SIMPLES: ANTES, DURANTE E DEPOIS

Podemos transformar a metacognição em uma prática cotidiana por meio de três momentos.

ANTES — PLANEJAR

Antes de uma reunião, evento ou decisão, pergunte:

“O que pretendo alcançar?”

“Como devo conduzir essa situação?”

“Como quero que as pessoas se sintam ao final?”

DURANTE — OBSERVAR

Enquanto a atividade acontece:

“As pessoas estão participando?”

“Minha comunicação está sendo compreendida?”

“Estou ouvindo?”

“Preciso mudar minha abordagem?”

DEPOIS — AVALIAR

Quando terminar:

“O que funcionou?”

“O que não funcionou?”

“O que aprendi?”

“O que farei diferente da próxima vez?”

Se nossos dirigentes adquirirem esse hábito, teremos líderes que melhoram continuamente.

NÃO TENHA MEDO DE PERGUNTAR À SUA EQUIPE

Existe ainda uma ferramenta extraordinariamente simples:

perguntar.

Depois de uma reunião, experimente dizer:

“Gostaria de saber de vocês: o que poderíamos fazer melhor?”

Ou:

“Existe alguma coisa na minha maneira de conduzir nosso trabalho que poderíamos aprimorar?”

Ou ainda:

“O que vocês precisam de mim para realizar melhor a missão de vocês?”

É necessário maturidade para perguntar.

E mais maturidade ainda para ouvir a resposta sem imediatamente tentar se defender.

Nem toda crítica estará correta.

Mas praticamente toda crítica pode nos ensinar alguma coisa — nem que seja sobre a percepção que estamos produzindo nas pessoas.

UMA PERGUNTA PARA CADA LÍDER DA ABA

Quero, portanto, propor um exercício a cada presidente de comissão, diretor, coordenador e integrante de nossas estruturas de liderança.

Ao final de cada semana, reserve alguns minutos e responda:

1. Quem eu ajudei a crescer nesta semana?

2. Quem eu ouvi verdadeiramente?

3. Quem recebeu de mim uma oportunidade?

4. Reconheci publicamente o trabalho de alguém?

5. Existe alguém da minha equipe se afastando sem que eu tenha procurado compreender o motivo?

6. Minha comunicação aproximou ou afastou pessoas?

7. O que aprendi sobre minha própria maneira de liderar?

E, finalmente:

8. O que farei melhor na próxima semana?

Se respondermos essas perguntas com sinceridade, estaremos praticando metacognição.

Mas estaremos fazendo algo ainda maior.

Estaremos construindo uma cultura de liderança baseada em aprendizado permanente.

FORTALECER PESSOAS FORTALECE A ABA

Existe uma razão para dedicarmos tanto esforço à formação de nossos líderes.

A ABA não será forte apenas porque possui diretorias em muitos lugares, numerosas comissões ou uma grande programação de eventos.

Ela será forte quando as pessoas que ocupam esses espaços compreenderem que sua principal missão é fazer outras pessoas crescerem.

Quando um dirigente ajuda um associado a sair da invisibilidade, ele fortalece a ABA.

Quando cria espaço para alguém palestrar pela primeira vez, fortalece a ABA.

Quando estimula um advogado a escrever, fortalece a ABA.

Quando aproxima dois profissionais que podem colaborar, fortalece a ABA.

Quando percebe que alguém está se afastando e o procura, fortalece a ABA.

Quando reconhece publicamente o trabalho de sua equipe, fortalece a ABA.

E quando tem humildade para olhar para a própria liderança e perguntar “onde eu também preciso melhorar?”, fortalece a ABA.

É por isso que metacognição não é apenas um conceito acadêmico.

Para nós, pode ser uma ferramenta de liderança.

Queremos líderes que pensem.

Mas queremos também líderes capazes de pensar sobre como estão pensando, decidir sobre como estão decidindo e refletir sobre como estão liderando.

Porque quem deseja desenvolver pessoas precisa aceitar uma verdade elementar:

o desenvolvimento começa em nós mesmos.

Na ABA, ninguém cresce sozinho.

E isso também significa que o verdadeiro líder cresce enquanto ajuda os outros a crescerem.

Esdras Dantas de Souza é advogado, professor, escritor e presidente da Associação Brasileira de Advogados. Foi advoagdo público vinculado à União, Juiz Titular do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal, conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Distrito Federal, conslheiro e diretor do Conselho Federal da OAB.

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