Advocacia estratégica na era da inteligência artificial mobiliza debate na 24ª Convenção da ABA

Mesa-redonda reuniu Jorge Calil, Eluar Sebould, Evie Monteiro, Gabriela Medina, Laila Gomes Machado Sampaio, Luciana Montagna, Patrícia Trindade e Viviane Helborn para discutir os impactos da transformação tecnológica sobre a atuação e o futuro dos advogados

A inteligência artificial já deixou de ser uma perspectiva distante para se tornar parte das transformações que estão modificando a maneira de pesquisar, produzir, comunicar, administrar escritórios e prestar serviços jurídicos. Diante dessa nova realidade, uma questão ganha importância especial: como utilizar a tecnologia sem perder aquilo que torna a advocacia essencialmente humana e, ao mesmo tempo, transformar inovação em estratégia profissional?

Foi em torno desse desafio que a mesa-redonda “Advocacia Estratégica na Era da Inteligência Artificial” reuniu advogados experientes durante a 24ª Convenção Anual da Associação Brasileira de Advogados – ABA, realizada no Windsor Barra Hotel, no Rio de Janeiro.

Com mediação de Jorge Calil, participaram dos debates Eluar Sebould, Evie Monteiro, Gabriela Medina, Laila Gomes Machado Sampaio, Luciana Montagna, Patrícia Trindade e Viviane Helborn.

Mais do que discutir ferramentas tecnológicas, o encontro colocou em perspectiva uma mudança que interessa diretamente ao exercício profissional: a inteligência artificial pode ampliar a produtividade e a capacidade de análise dos escritórios, mas exige do advogado ainda mais estratégia, qualificação, discernimento, responsabilidade e capacidade de relacionamento.

Tecnologia como instrumento, não como substituta do advogado

A discussão sobre inteligência artificial no Direito frequentemente é acompanhada pela pergunta sobre quais atividades poderão ser automatizadas. Para a advocacia, entretanto, existe uma questão ainda mais relevante: quais competências humanas se tornarão mais valiosas à medida que a tecnologia assumir tarefas operacionais?

É justamente nesse ponto que surge a advocacia estratégica.

Ferramentas de inteligência artificial podem auxiliar em pesquisas, organização de informações, análise de documentos, elaboração preliminar de conteúdos e diferentes rotinas administrativas. Mas compreender o problema do cliente, avaliar riscos, construir estratégias, negociar, interpretar contextos, estabelecer relações de confiança e assumir responsabilidade profissional continuam dependendo do advogado.

Nesse novo ambiente, conhecer o Direito permanece indispensável — mas já não é suficiente. O profissional também precisa compreender as transformações tecnológicas que afetam seus clientes, seu escritório, sua forma de trabalhar e o próprio mercado jurídico.

Diferentes experiências reunidas em torno do futuro da profissão

A composição plural da mesa permitiu colocar o tema sob diferentes perspectivas profissionais.

Sob a mediação de Jorge Calil, Eluar Sebould, Evie Monteiro, Gabriela Medina, Laila Gomes Machado Sampaio, Luciana Montagna, Patrícia Trindade e Viviane Helborn compartilharam experiências e reflexões em torno de uma questão que atravessa diferentes áreas da advocacia: como incorporar inovação ao exercício profissional sem abrir mão da qualidade técnica, da ética e da identidade própria de cada advogado.

Entre as debatedoras, há trajetórias que ilustram essa diversidade. Eluar Sebould, por exemplo, é advogada, mestre em Ciência Jurídica Forense pela Universidade Portucalense, professora e presidente da Comissão Nacional de Advocacia Extrajudicial da ABA, além de exercer atividades ligadas ao mercado imobiliário. Evie Monteiro possui mais de uma década de experiência profissional e atuação especialmente ligada a contratos, franquias e Direito Empresarial.

A presença de profissionais com diferentes experiências tornou particularmente pertinente a abordagem escolhida pela Convenção: a inteligência artificial não interessa apenas aos chamados advogados de tecnologia. Ela tende a repercutir sobre praticamente todas as áreas da profissão.

Inteligência artificial exige também inteligência estratégica

Uma das grandes mudanças provocadas pela tecnologia é justamente a possibilidade de executar determinadas tarefas com muito mais velocidade.

Mas velocidade, isoladamente, não representa necessariamente qualidade.

O advogado continuará precisando saber o que perguntar, o que pesquisar, o que conferir, qual caminho escolher e qual estratégia adotar. Quanto maior a capacidade das ferramentas tecnológicas, maior também será a importância do conhecimento jurídico e do julgamento profissional para avaliar aquilo que elas produzem.

Por isso, a formação do advogado contemporâneo tende a incorporar competências que antes poderiam parecer periféricas: gestão, comunicação, tecnologia, posicionamento profissional, relacionamento, visão empresarial e capacidade de compreender novos modelos de negócios.

É nesse conjunto que a tecnologia pode deixar de representar uma ameaça e passar a funcionar como instrumento de crescimento.

Conhecimento também constrói autoridade

A realização de uma mesa-redonda com vários profissionais possui ainda outra dimensão importante dentro da proposta da Convenção da ABA: permitir que os próprios associados compartilhem aquilo que sabem e sejam reconhecidos por suas experiências e competências.

Participar de um debate profissional, apresentar ideias, compartilhar experiências e contribuir para a formação dos colegas também são formas legítimas de construção de autoridade.

A Associação Brasileira de Advogados tem como missão promover o crescimento e o reconhecimento profissional de seus associados. Isso significa não apenas oferecer conhecimento aos advogados, mas também criar espaços nos quais eles possam mostrar seu trabalho, desenvolver relacionamentos, compartilhar experiências e tornar suas competências conhecidas.

Nesse sentido, os participantes de uma mesa-redonda deixam de ocupar apenas a posição de espectadores de um grande evento jurídico. Tornam-se protagonistas da construção coletiva do conhecimento.

Uma advocacia preparada para aquilo que vem pela frente

Para o presidente nacional da ABA, Esdras Dantas, debates dessa natureza traduzem uma das razões pelas quais a entidade investe na formação e na participação de seus associados.

“A ABA precisa preparar os seus associados para a advocacia que está surgindo, mas também precisa criar oportunidades para que esses profissionais mostrem aquilo que sabem. Quando um advogado compartilha sua experiência, participa de um debate qualificado e contribui para o aprendizado dos colegas, ele também fortalece sua autoridade profissional. Crescimento e reconhecimento precisam caminhar juntos.”

A inteligência artificial certamente continuará evoluindo. Novas ferramentas surgirão, outras desaparecerão e diferentes atividades profissionais serão transformadas.

A questão central, portanto, talvez não seja descobrir se a inteligência artificial mudará a advocacia. Essa transformação já começou.

O verdadeiro desafio é preparar advogados capazes de utilizá-la com conhecimento, responsabilidade, estratégia e visão de futuro.

Ao reunir profissionais experientes para refletir coletivamente sobre essas mudanças, a 24ª Convenção Anual da ABA colocou seus associados não apenas diante das transformações da advocacia, mas também como participantes ativos da construção dos caminhos que a profissão deverá percorrer.

Da Redação do Ordem Democrática

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