QUANDO A POLÍTICA TROCA PROPOSTAS POR ATAQUES, PERDE O ELEITOR

Denúncias responsáveis fazem parte da democracia, mas campanhas dominadas por hostilidade, desinformação e ataques pessoais empobrecem o debate e afastam o cidadão das soluções que realmente importam

Em uma democracia, eleições deveriam representar muito mais do que uma disputa pelo poder. São momentos em que a sociedade escolhe projetos, avalia prioridades e decide quais caminhos pretende seguir nos anos seguintes. É justamente por isso que uma campanha eleitoral deveria permitir ao cidadão conhecer não apenas quem são os candidatos, mas principalmente o que cada um pretende fazer.

No entanto, campanhas políticas podem assumir outro caminho: em vez de propostas, predominam ataques; em lugar de projetos, acusações; no lugar da discussão sobre saúde, educação, segurança, emprego e desenvolvimento, o adversário transforma-se no principal assunto.

A fiscalização dos agentes públicos e a apresentação de denúncias fundamentadas são legítimas e necessárias. Corrupção, abuso de poder e outras irregularidades devem ser investigados pelas instituições competentes. O problema começa quando a denúncia deixa de ser instrumento de controle e passa a ser utilizada sem elementos verificáveis como estratégia de comunicação, ou quando toda a campanha se constrói sobre a rejeição ao adversário.

O desafio para o eleitor é aprender a distinguir uma coisa da outra — e exigir mais de quem pretende representá-lo.

Fiscalizar é necessário, mas o eleitor também merece propostas

A democracia precisa de oposição, fiscalização e crítica. Nenhum governante, partido ou autoridade deve estar protegido do escrutínio público.

Da mesma forma, jornalistas, cidadãos, parlamentares e candidatos possuem papel importante ao revelar fatos de interesse público e questionar aqueles que exercem poder.

Denúncias sérias, entretanto, precisam estar vinculadas a fatos e submetidas aos mecanismos adequados de apuração. Acusação não equivale automaticamente a prova, e o Estado de Direito assegura garantias como o devido processo legal e o direito de defesa.

Nas Eleições de 2026, o próprio Tribunal Superior Eleitoral tem ampliado iniciativas voltadas ao enfrentamento da desinformação e ao acesso do eleitor a informações confiáveis sobre o processo eleitoral. A preocupação demonstra como a qualidade da informação passou a ocupar posição central na proteção da integridade das eleições.

Mas existe outra questão que depende menos dos tribunais e mais da maturidade democrática da sociedade: a qualidade das propostas apresentadas ao eleitor.

Uma candidatura não deveria ser avaliada somente pelo que afirma sobre seus adversários. É razoável perguntar o que ela pretende fazer caso receba a confiança da população.

Qual é o projeto para a saúde? Como melhorar a educação? Quais propostas existem para segurança pública, emprego, desenvolvimento econômico e redução das desigualdades? Quanto custarão? Como serão financiadas? São juridicamente possíveis?

Quanto mais concretas forem essas respostas, maiores serão as condições para que o eleitor compare projetos em vez de apenas escolher antagonismos.

A política da indignação permanente cobra um preço da sociedade

Existe uma diferença entre divergência política e hostilidade política.

A primeira é natural. Democracia pressupõe discordância.

A segunda surge quando pessoas que pensam de maneira diferente deixam de ser consideradas adversárias no campo das ideias e passam a ser tratadas como inimigas.

Pesquisas acadêmicas realizadas no Brasil identificaram a presença da chamada polarização afetiva, caracterizada não necessariamente pela distância entre propostas políticas, mas pela crescente rejeição emocional entre grupos identificados com campos diferentes. Estudos também vêm investigando sua relação com o bem-estar subjetivo e com a convivência social.

Esse aspecto merece atenção porque a política não permanece confinada às urnas.

Ela entra nas redes sociais, nas famílias, nos grupos de amigos, nos ambientes profissionais e nas relações cotidianas.

Quando campanhas e lideranças transformam permanentemente indignação, medo e hostilidade em instrumentos de mobilização, existe o risco de que o conflito eleitoral seja transportado para essas relações.

Não se trata de afirmar que divergências políticas devam desaparecer. Ao contrário: uma sociedade livre precisa conviver com ideias profundamente diferentes.

O desafio está em discordar sem desumanizar.

O cidadão também pode proteger sua própria relação com o debate público. Conferir informações antes de compartilhá-las, diversificar fontes, evitar discussões baseadas exclusivamente em provocações e preservar relações pessoais diante de divergências são atitudes simples, mas importantes.

Nenhuma eleição deveria exigir que famílias se transformassem em campos adversários permanentes.

O eleitor pode exigir uma política melhor

Melhorar a qualidade das campanhas não depende apenas de novas leis. Depende também daquilo que a sociedade passa a exigir de seus candidatos.

O eleitor pode começar fazendo perguntas simples.

Depois de assistir a um discurso, consegue identificar alguma proposta concreta? O candidato explicou como pretende executá-la? Apresentou prioridades? Demonstrou conhecimento dos problemas que pretende administrar? Quando formulou acusações, apresentou elementos verificáveis ou apenas afirmações destinadas a provocar indignação?

Outra pergunta talvez seja ainda mais reveladora: quanto tempo o candidato dedica a explicar seus próprios projetos e quanto dedica exclusivamente a falar dos adversários?

Campanhas democráticas podem ser firmes. Podem apresentar diferenças profundas. Podem denunciar irregularidades e questionar gestões anteriores. Não precisam ser artificiais ou evitar conflitos legítimos.

Mas devem oferecer ao cidadão algo além da rejeição.

Quem pretende governar precisa demonstrar capacidade de construir. Governar exige diálogo, planejamento, escolha de prioridades, administração de recursos públicos e convivência com instituições e setores da sociedade que nem sempre concordarão entre si.

O eleitor não precisa renunciar às suas convicções para exigir esse padrão. Independentemente de se identificar com direita, centro, esquerda ou com nenhuma dessas classificações, pode cobrar de todos os candidatos o mesmo compromisso com fatos, propostas e respeito democrático.

Essa talvez seja uma das formas mais importantes de amadurecimento político.

A democracia não pede ao cidadão que deixe de se indignar diante de erros, injustiças ou irregularidades. Pede que transforme indignação em consciência.

Denunciar quando necessário é parte da democracia. Fiscalizar o poder também. Mas governar exige muito mais.

Uma eleição de qualidade é aquela em que, depois de conhecer o passado e avaliar as críticas, o cidadão consegue enxergar os diferentes projetos apresentados para o futuro.

Quando o eleitor passa a exigir propostas em vez de apenas ataques, fatos em vez de rumores e soluções em vez de inimigos, toda a democracia ganha.

Redação Ordem Democrática

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