Esdras Dantas de Souza: O advogado está sendo ouvido?

Na foto, Dr. Moysés Silva, membro da ABA (SP) —

Cresce entre profissionais da advocacia a sensação de distanciamento, invisibilidade e dificuldade no exercício da profissão

Existe uma pergunta que muitos advogados brasileiros têm feito em silêncio — e talvez tenha chegado a hora de fazê-la em voz alta:

O advogado brasileiro está sendo ouvido?

A reflexão não nasce do desejo de conflito.
Nem de enfrentamento institucional.

Nasce da preocupação legítima com os rumos da advocacia brasileira e com a realidade vivida diariamente por milhares de profissionais que sustentam, silenciosamente, o funcionamento da Justiça no país.

Em diferentes regiões do Brasil, cresce entre advogados a percepção de que o exercício profissional tem se tornado cada vez mais desgastante — não apenas pelo volume de trabalho, mas pela sensação de distanciamento, dificuldade de acesso e enfraquecimento da escuta institucional.

Há colegas que relatam obstáculos para despachos pessoais, dificuldades crescentes no contato direto com magistrados, restrições à sustentação oral e ambientes cada vez menos receptivos ao diálogo profissional.

E isso produz uma inquietação que não pode ser ignorada.

Prerrogativas não são privilégios

É importante lembrar que as prerrogativas da advocacia nunca foram criadas como benefícios pessoais do advogado.

Elas existem para garantir o pleno exercício do direito de defesa.

Quando um advogado encontra dificuldades injustificadas para exercer sua função, não é apenas ele quem perde espaço. O cidadão também perde proteção.

A advocacia não ocupa posição secundária no sistema de Justiça. A própria Constituição Federal reconhece o advogado como indispensável à administração da Justiça.

Por isso, o debate sobre prerrogativas deve ser tratado com seriedade, equilíbrio e maturidade institucional.

Não se trata de criar tensão entre instituições.
Trata-se de preservar garantias fundamentais do Estado Democrático de Direito.

O cansaço silencioso da advocacia

Talvez uma das maiores dores da advocacia brasileira hoje não seja apenas financeira.

É emocional.

Muitos profissionais vivem uma rotina marcada por pressão, insegurança, excesso de responsabilidades e sensação de invisibilidade.

Há advogados extremamente preparados tecnicamente, mas emocionalmente cansados.

Profissionais que estudaram durante anos, dedicaram a vida à carreira e, ainda assim, sentem que perderam espaço, reconhecimento e acolhimento.

Em muitos casos, o advogado não deseja privilégios. Deseja apenas respeito.

Deseja ser ouvido.

Deseja exercer sua profissão com dignidade.

A advocacia da base precisa voltar ao centro das discussões

A advocacia brasileira é muito maior do que grandes bancas e estruturas consolidadas.

Ela é formada, principalmente, por profissionais que enfrentam diariamente a realidade dos fóruns, das audiências, dos prazos e da sobrevivência profissional.

É o jovem advogado tentando construir espaço.

É a advogada mãe equilibrando profissão e família.

É o profissional do interior enfrentando limitações estruturais.

É o advogado autônomo tentando manter sua dignidade em um mercado cada vez mais competitivo.

Esses profissionais precisam voltar ao centro das reflexões institucionais da advocacia brasileira.

Menos vaidade. Mais presença.

A advocacia brasileira vive um momento que exige equilíbrio, diálogo e reconstrução de pontes.

Mais do que discursos formais, muitos advogados esperam presença verdadeira.

Esperam escuta.

Esperam acolhimento.

Esperam representatividade conectada com a realidade da profissão.

O fortalecimento da advocacia não depende apenas de estruturas institucionais. Depende também da capacidade de compreender as dores reais da classe e enfrentar os desafios com coragem, maturidade e responsabilidade.

A missão de fortalecer a advocacia

É nesse contexto que iniciativas independentes de debate e valorização profissional têm ganhado espaço entre advogados de todo o país.

Projetos voltados ao crescimento, reconhecimento profissional, fortalecimento institucional e defesa da dignidade da advocacia passam a ocupar papel importante no apoio aos colegas que se sentem desmotivados ou desconectados da profissão.

A advocacia brasileira continua sendo uma das profissões mais nobres da República.

Mas ela precisa voltar a ser ouvida.

Precisa voltar a ser valorizada.

Precisa voltar a ser respeitada.

Porque quando a advocacia enfraquece…
a própria Justiça perde força.

Esdras Dantas de Souza
Advogado, professor, Especialista em Direito Público Interno e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)

Associação Brasileira de Advogados (ABA)
“Valorizando o advogado. Fortalecendo a Justiça.”

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