Ela pediu ajuda. O sistema falhou.

Quando a proteção chega tarde, o feminicídio se torna tragédia anunciada

Por Elizabete Dantas

A história se repete — e isso é o mais revoltante.

Antes de se tornar estatística, quase toda vítima de feminicídio deu sinais. Pediu ajuda. Denunciou. Gritou, mesmo que em silêncio. E ainda assim, em muitos casos, o sistema falhou.

Um problema que não começa no crime

O feminicídio não começa no momento da morte.

Ele começa muito antes — nas ameaças ignoradas, nas agressões minimizadas, nas denúncias que não recebem a devida atenção. Começa quando a sociedade encara a violência doméstica como “problema de casal” e não como questão pública.

Essa banalização custa vidas.

O que diz a lei — e o que acontece na prática

A Lei Maria da Penha é considerada uma das mais avançadas do mundo. Prevê medidas protetivas, afastamento do agressor e proteção à vítima.

No papel, o Brasil avançou.

Na prática, ainda falha.

A demora na análise de pedidos, a falta de estrutura, o despreparo em alguns atendimentos e a ausência de monitoramento eficaz criam brechas perigosas — e, muitas vezes, fatais.

O padrão que se repete

Em muitos casos de feminicídio:

  • A vítima já havia denunciado
  • O agressor já havia ameaçado
  • Havia histórico de violência

Ou seja: não foi surpresa.

Foi negligência.

Onde estamos errando?

Estamos errando quando:

  • Normalizamos o controle e o ciúme excessivo
  • Desacreditamos a palavra da vítima
  • Tratamos violência psicológica como algo menor

A violência não começa com o tapa. Começa com o domínio.

O que precisa mudar

É urgente:

  • Agilidade nas medidas protetivas
  • Monitoramento efetivo dos agressores
  • Educação da sociedade desde cedo
  • Acolhimento real às vítimas

E, acima de tudo, é necessário parar de tratar o problema como exceção.

Ele é estrutural.

Conclusão

Toda mulher que morre após pedir ajuda expõe uma falha coletiva.

E enquanto o sistema chegar depois da tragédia, continuaremos contando histórias que poderiam ter sido evitadas.

Porque, nesse cenário, o silêncio não é neutro — ele mata.

Elizabete Souza Dantas é advogada, licenciada em Estudos Sociais, pós-graduada em Língua Portuguesa e membro da Associação Brasileira de Advogados. Atua na defesa dos direitos das mulheres e é responsável pela coluna “Voz Feminina: Justiça, Consciência e Transformação” do site Ordem Democrática

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