O crime que começa muito antes da última agressão
O feminicídio raramente começa com a violência fatal.
Ele começa com o controle.
Começa quando o companheiro decide com quem ela pode falar.
Quando exige senhas.
Quando fiscaliza roupas.
Quando transforma ciúme em justificativa de posse.
Quando a humilha em público e pede desculpas em privado.
Esses sinais — quase sempre naturalizados — são os primeiros degraus de uma escalada que pode terminar em tragédia.
Especialistas, promotores, magistrados e advogadas que atuam na defesa de vítimas repetem o mesmo alerta: o feminicídio é, na maioria das vezes, precedido por um histórico visível de violência psicológica e moral. O problema é que a sociedade ainda hesita em enxergar essas condutas como risco concreto.
O ciclo que se instala em silêncio
O padrão costuma seguir uma lógica previsível:
- Controle progressivo
- Isolamento social
- Desqualificação emocional
- Ameaças veladas
- Agressões verbais
- Violência física
Quando a agressão se torna pública, muitas vezes o ciclo já está consolidado. A vítima, fragilizada emocionalmente, teme denunciar. Depende financeiramente. Tem filhos. Sente vergonha. Receia não ser protegida.
Advogadas integrantes da Associação Brasileira de Advogados afirmam que grande parte das mulheres que chegam aos escritórios relatam ter ignorado — ou sido orientadas a ignorar — os primeiros sinais. “Ele só estava nervoso”, “é o jeito dele”, “vai melhorar”.
Não melhora sem intervenção.
Medidas protetivas: suficientes no papel, frágeis na prática?
O Brasil possui legislação específica para combater a violência doméstica. Entretanto, a distância entre a norma e a efetividade ainda preocupa.
Delegacias especializadas não funcionam 24 horas em diversas cidades.
A fiscalização de medidas protetivas é insuficiente.
A tecnologia disponível — como monitoramento eletrônico — ainda não alcança todos os casos de risco.
Há, portanto, um hiato entre o reconhecimento jurídico do problema e a resposta estrutural do Estado.
A responsabilidade política
O debate legislativo sobre endurecimento de penas, ampliação de monitoramento eletrônico e fortalecimento de políticas preventivas avança lentamente no Congresso Nacional. Projetos permanecem anos aguardando votação enquanto estatísticas de violência seguem alarmantes.
É legítimo questionar:
Por que um tema que envolve a preservação da vida feminina não ocupa prioridade absoluta na agenda parlamentar?
O presidente da Associação Brasileira de Advogados, Esdras Dantas de Souza, defende uma postura mais firme do Estado:
“Não se trata de discurso ideológico, mas de responsabilidade institucional. O Brasil precisa de legislação mais eficiente, de fiscalização real e de políticas públicas contínuas. A omissão custa vidas. O Parlamento deve tratar esse tema com a urgência que ele exige.”
A fala não aponta partidos. Aponta prioridades.
Onde o sistema precisa avançar
Especialistas ouvidos por esta reportagem indicam caminhos concretos:
- Monitoramento eletrônico obrigatório em casos de risco elevado
- Delegacias da Mulher funcionando 24 horas em todo o país
- Integração imediata entre Judiciário, Ministério Público e forças de segurança
- Políticas de independência financeira para mulheres em situação de violência
- Programas de educação emocional voltados à prevenção, especialmente para homens jovens
A prevenção começa antes da denúncia. Começa na escola, na família, na cultura.
O papel da sociedade
Há também responsabilidade coletiva.
Vizinhos escutam.
Familiares percebem.
Amigos sabem.
O silêncio social, muitas vezes, alimenta a escalada da violência.
Ignorar sinais não é neutralidade — é risco.
Não começa com a morte
O feminicídio não surge de um rompante isolado. Ele é, quase sempre, o ponto final de uma sequência de alertas desconsiderados.
Tratar esses sinais com seriedade não é alarmismo. É prudência.
O Brasil já reconheceu juridicamente o problema. Agora precisa torná-lo prioridade política, estrutural e cultural.
Porque, quando os primeiros sinais são ignorados, a última agressão pode não deixar espaço para arrependimentos.
E políticas públicas não podem continuar chegando tarde demais.
Por Dante Navarro