O caso envolvendo Vinícius Júnior reacende o debate global sobre discriminação e impõe às instituições a responsabilidade de agir com firmeza
O futebol é celebrado como linguagem universal. Une povos, rompe fronteiras e transforma atletas em símbolos de superação. Mas, em pleno século XXI, ainda carrega uma ferida que insiste em permanecer aberta: o racismo.
O mais recente episódio envolvendo o atacante brasileiro Vinícius Júnior, jogador do Real Madrid, não é apenas mais um incidente isolado. É um retrato de um problema estrutural que persiste no esporte mundial e que compromete a própria ideia de civilização.
Racismo não é provocação. É violência.
Tentar reduzir manifestações racistas a “provocação de jogo” é ignorar a gravidade do ato. Racismo não é estratégia competitiva, não é emoção exacerbada, não é parte do espetáculo.
É violência simbólica.
Quando alguém tenta afirmar superioridade racial dentro de um campo de futebol, não está apenas ofendendo um atleta. Está reproduzindo uma lógica histórica de exclusão que custou séculos de dor à humanidade.
Casos semelhantes já mobilizaram entidades como a UEFA, que enfrenta pressão crescente para endurecer punições e adotar medidas efetivas contra atos discriminatórios.
O impacto que ultrapassa o gramado
O racismo no esporte não termina com o apito final. Ele ecoa nas redes sociais, influencia jovens torcedores e normaliza comportamentos que deveriam estar definitivamente superados.
Atletas como Vinícius Júnior são referências para milhões de crianças. Quando o agressor recebe punição branda ou pede desculpas públicas após ter incentivado comportamentos odiosos, a mensagem transmitida é perigosa: a de que o preconceito pode ser relativizado.
Não pode.
O racismo alimenta o ódio entre pessoas desinformadas, inseguras e incapazes de conviver com a diversidade. É expressão de ignorância, mas também de omissão institucional quando não enfrentado com firmeza.
A posição da advocacia brasileira
A Associação Brasileira de Advogados também se manifestou sobre o tema, reforçando que o combate ao racismo deve ser permanente e institucional.
O presidente da ABA, Esdras Dantas de Souza, declarou:
“O racismo não é apenas uma ofensa individual. É um ataque à dignidade humana e à própria democracia. Quando um atleta é humilhado pela cor da pele, toda a sociedade é atingida. As instituições esportivas precisam aplicar punições exemplares e educativas. Não podemos permitir que o ódio seja tratado como deslize emocional. O esporte deve ser território de igualdade, respeito e civilidade.”
A fala ecoa um entendimento jurídico consolidado: discriminação racial não é opinião, é infração.
O que precisa mudar: punições exemplares
Para que o combate ao racismo deixe de ser discurso e se torne prática efetiva, especialistas apontam medidas necessárias:
Suspensão prolongada
Jogadores comprovadamente envolvidos em atos racistas devem enfrentar afastamento significativo das competições.
Multas severas e responsabilidade financeira
Sanções econômicas relevantes para atletas e clubes.
Perda de pontos e punições esportivas estruturais
Em casos recorrentes, a responsabilização deve alcançar o clube.
Educação obrigatória e monitoramento institucional
Programas contínuos de formação antirracista para atletas e equipes técnicas.
Reincidência como agravante máximo
Quem reincide não pode ser tratado com indulgência.
O que está em jogo é maior que o futebol
O futebol é reflexo da sociedade. Quando falha em proteger seus atletas, expõe fragilidades institucionais. Mas também pode ser instrumento de transformação.
Cada episódio envolvendo Vinícius Júnior deve ser compreendido como alerta social. Não se trata apenas de um jogador. Trata-se de afirmar que ninguém é superior a ninguém.
O talento não tem cor. A dignidade não tem hierarquia.
Conclusão: o jogo precisa evoluir
O combate ao racismo exige maturidade coletiva e coragem institucional. Notas oficiais e campanhas temporárias não bastam.
É preciso agir com rigor.
Enquanto houver quem insista em pregar superioridade racial, o esporte terá a obrigação moral de responder com firmeza — não apenas em defesa de um atleta, mas em defesa da própria humanidade.
Porque o verdadeiro espetáculo não está apenas nos gols.
Está na capacidade de transformar o futebol em um território definitivo de respeito.
Por Dante Navarro