Dra. Natália Doro: A Advocacia que Conecta Brasil e Estados Unidos

Em um cenário jurídico cada vez mais globalizado, poucos profissionais conseguem unir técnica, visão estratégica e atuação internacional com a naturalidade de quem constrói pontes — e não muros.

A Dra. Natália Rossi Doro, advogada inscrita na OAB/PR, com mais de 17 anos de experiência, representa exatamente essa nova geração de juristas brasileiros que ultrapassam fronteiras sem perder identidade. Bacharel pela UniCuritiba, pós-graduada em Direito Tributário Empresarial pela PUC-PR e atualmente mestranda em American and Transnational Law pela University of Dayton School of Law, Natália soma formação sólida no Brasil com imersão acadêmica e profissional nos Estados Unidos.

Residente em Orlando, na Flórida, atua com consultoria estratégica voltada à migração para os Estados Unidos, com foco especial em vistos de trabalho para profissionais qualificados. Sua atuação não é apenas técnica — é transformadora. Ela auxilia talentos brasileiros a estruturarem sua vida profissional no exterior com segurança jurídica e planejamento.

Como Presidente da Comissão de Direito Internacional e Imigratório da Associação Brasileira de Advogados (ABA), pelo segundo mandato, Dra. Natália tem desempenhado papel fundamental na consolidação da ABA como referência também fora do Brasil, promovendo networking, conhecimento e oportunidades para advogados que desejam ampliar sua atuação internacional.

Sua trajetória é prova de que a advocacia brasileira pode ser global — sem perder propósito.

Entrevista

Ordem Democrática – Dra. Natália, sua trajetória profissional une Brasil e Estados Unidos. Em que momento você percebeu que sua advocacia teria uma vocação internacional?

Natalia Doro – Percebi que minha advocacia tinha uma vocação internacional no momento em que decidi imigrar para os Estados Unidos e começar a trabalhar aqui. Mas essa percepção se aprofundou ainda mais quando vivi meu próprio processo imigratório — que foi negado duas vezes quando elaborado por uma empresa de consultoria.

Depois dessas negativas, precisei assumir o controle, estudar, entender a legislação e conduzir meu caso sozinha. Foi assim que consegui a aprovação.

Essa experiência pessoal mudou completamente minha visão: percebi que eu não só podia transitar entre sistemas jurídicos diferentes, como queria ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo. Foi ali que entendi que minha trajetória não seria limitada a um único país. Minha vocação internacional não nasceu apenas da mudança geográfica, mas da vivência real de um processo que transformou minha carreira e meu propósito.

Ordem Democrática – Morando em Orlando e atuando diretamente com migração para os EUA, quais são hoje as principais demandas dos profissionais brasileiros que desejam trabalhar legalmente nos Estados Unidos?

Natalia Doro – Morando em Orlando e atuando diretamente com migração para os EUA, percebo que as principais demandas dos profissionais brasileiros giram em torno de três grandes eixos: regularização, empregabilidade e planejamento de carreira. 

A primeira demanda é entender quais caminhos legais realmente permitem trabalhar nos Estados Unidos — seja por meio de vistos baseados em emprego, vistos de habilidades, transferência corporativa ou processos de residência. Muitos chegam com informações fragmentadas e precisam de orientação técnica para identificar a rota viável.

A segunda é compreender como validar a própria trajetória profissional aqui. Profissionais qualificados querem saber como transformar sua experiência brasileira em algo reconhecido no mercado americano, seja por meio de equivalência acadêmica, licenças, certificações ou reposicionamento estratégico.

E a terceira demanda é o planejamento de longo prazo. Cada vez mais brasileiros buscam não apenas um visto, mas uma estratégia de carreira que faça sentido dentro do contexto americano — algo que conecte propósito, oportunidade e segurança jurídica.

No dia a dia, meu trabalho envolve justamente ajudar esses profissionais a navegar esse processo com clareza, segurança e realismo, evitando atalhos e construindo caminhos sólidos para quem deseja trabalhar legalmente nos Estados Unidos.

Ordem Democrática – Você tem se destacado na consultoria para vistos de trabalho voltados a profissionais especializados. Quais categorias de visto mais têm despertado interesse dos brasileiros?

Natalia Doro – As categorias de visto que mais têm despertado interesse dos brasileiros hoje são aquelas voltadas a profissionais especializados e que valorizam trajetória, qualificação e impacto. Entre elas, destaco três grupos principais.

O primeiro são os vistos baseados em habilidades, como o O‑1 e o EB‑1, que atraem profissionais com carreira consolidada, portfólio robusto e histórico de resultados. Muitos brasileiros têm buscado esses caminhos por oferecerem maior autonomia e possibilidade de residência permanente.

O segundo grupo envolve os vistos de emprego tradicionais, como o H‑1B e o EB‑2/EB‑3, especialmente para áreas técnicas, ciencias e profissões regulamentadas. Há uma demanda crescente por entender como validar experiência, formação e licenças para se tornar elegível.

E o terceiro grupo são os vistos de habilidades excepcionais e interesse nacional, como o EB‑2 NIW, que têm ganhado força entre profissionais qualificados que desejam construir uma trajetória de longo prazo nos Estados Unidos.

No meu dia a dia, percebo que o interesse não é apenas pelo visto em si, mas por estratégias que conectem carreira, propósito e viabilidade jurídica, e é exatamente nesse ponto que meu trabalho se concentra.

Ordem Democrática – Quais são os maiores erros que profissionais cometem ao tentar estruturar um processo migratório para os Estados Unidos sem orientação jurídica adequada?

Natalia Doro – Os maiores erros acontecem quando o profissional tenta estruturar um processo migratório tomando decisões baseadas em achismos, informações incompletas ou promessas irreais.

O primeiro erro é acreditar que existe um ‘atalho’ ou uma fórmula pronta. Cada caso depende de critérios legais específicos, e ignorar isso leva muita gente a investir tempo e dinheiro em caminhos inviáveis.

O segundo é subestimar a importância da documentação. Muitos profissionais não conseguem comprovar experiência, impacto ou qualificações porque não sabem quais evidências são relevantes para o governo americano, e isso compromete todo o processo.

Outro erro comum é tentar encaixar a própria carreira em um visto que não faz sentido jurídico. Em vez de analisar o perfil e escolher a categoria adequada, a pessoa escolhe o visto primeiro e tenta moldar a narrativa depois, o que quase sempre gera inconsistências.

E, por fim, há o risco de confiar em orientações superficiais ou generalistas. Migração é um campo técnico, cheio de nuances, e decisões mal orientadas podem resultar em negativas, restrições futuras e perda de oportunidades.

Por isso, sempre reforço que um processo migratório bem‑feito começa com estratégia, análise jurídica e uma narrativa profissional coerente com os requisitos legais.

Ordem Democrática – Como sua formação em Direito Tributário Empresarial e seu mestrado em American and Transnational Law contribuem para oferecer uma visão mais estratégica aos seus clientes?

Natalia Doro – Embora minha especialização em Direito Tributário Empresarial não seja aplicada diretamente aqui (já que era voltada para empresas e para o contexto jurídico brasileiro) ela ainda contribui para a forma como eu raciocino casos complexos, estruturo argumentos e analiso riscos. Essa base técnica me deu uma visão muito sólida de compliance, estratégia e tomada de decisão, que acaba influenciando minha abordagem mesmo em outra área.

Já o meu mestrado em American and Transnational Law tem um impacto direto no trabalho que faço hoje. Ele me permite compreender profundamente o sistema jurídico americano, suas lógicas, seus padrões de prova e a forma como as instituições operam. Isso me dá segurança para orientar meus clientes com clareza, realismo e estratégia, conectando a trajetória profissional deles aos requisitos legais daqui.

A combinação dessas formações (uma que moldou meu raciocínio jurídico e outra que me inseriu no sistema americano) me permite oferecer uma visão mais ampla, técnica e estratégica para quem busca construir uma carreira ou um caminho migratório nos Estados Unidos.

Ordem Democrática – A atuação jurídica internacional exige não apenas conhecimento técnico, mas adaptação cultural e compreensão do sistema jurídico norte-americano. Quais foram os principais desafios dessa transição?

Natalia Doro –A transição para atuar no contexto jurídico norte‑americano trouxe desafios que iam muito além do conhecimento técnico. O primeiro foi cultural: entender a lógica de comunicação direta, a objetividade esperada e a forma como hierarquias, responsabilidades e processos são estruturados aqui.

O segundo desafio foi compreender a arquitetura do sistema jurídico americano, que é completamente diferente do brasileiro: desde a terminologia até a lógica das cortes, dos prazos e da construção de evidências. Foi literalmente reaprender a pensar juridicamente.

Também houve o desafio da linguagem técnica. Mesmo dominando o inglês, o vocabulário jurídico e corporativo exige precisão, e eu precisei estudar muito para me sentir segura.

Por fim, houve um componente emocional importante: aceitar que, apesar da minha experiência no Brasil, eu teria que recomeçar, me adaptar e reconstruir minha trajetória passo a passo. Essa combinação de adaptação cultural, domínio técnico e resiliência foi fundamental para que eu pudesse atuar com segurança e estratégia no mercado americano.

Ordem Democrática – Como Presidente da Comissão de Direito Internacional e Imigratório da ABA pelo segundo mandato, quais avanços você destacaria na consolidação da comissão e no fortalecimento da presença internacional da ABA?

Natalia Doro – Neste segundo mandato à frente da Comissão de Direito Internacional e Imigratório da ABA, tivemos avanços muito significativos na consolidação da comissão e no fortalecimento da presença internacional da Associação.

Um dos marcos mais importantes é o nosso livro, que está em fase final de produção e com lançamento previsto para abril. Ele se tornou um projeto coletivo robusto, pensado para oferecer conteúdo acessível e prático a profissionais que atuam ou desejam atuar na área internacional.

Também ampliamos substancialmente a disponibilização de informações qualificadas sobre legislação internacional e atualizações imigratórias, por meio de conteúdos gratuitos no YouTube e no Instagram. Essa produção constante democratizou o acesso ao conhecimento e aproximou ainda mais a ABA de profissionais no Brasil e no exterior.

Além disso, fortalecemos nossa agenda técnica com debates, aulas especializadas e encontros formativos para os membros da comissão, criando um espaço contínuo de troca, atualização e networking global.
Essas iniciativas consolidaram a comissão como um polo ativo de produção de conhecimento e reforçaram a presença internacional da ABA, conectando nossos membros a discussões relevantes e a profissionais de diversos países.

Ordem Democrática – Que mensagem você deixaria aos advogados brasileiros que desejam expandir sua atuação para o exterior, especialmente para os Estados Unidos, e como a ABA pode ser um apoio estratégico nessa jornada?

Natalia Doro – Aos advogados brasileiros que desejam expandir sua atuação para o exterior, minha mensagem é simples e direta: é possível, mas exige preparo, estratégia e disposição para recomeçar.

Não basta dominar o Direito; é preciso compreender o sistema jurídico, adaptar a forma de comunicar, aprender a construir autoridade em outro país e, principalmente, ter coragem para sair da zona de conforto.

Quem deseja trilhar esse caminho precisa estudar, se atualizar, buscar referências e se inserir em ambientes que favoreçam networking e troca de conhecimento. É um processo que exige resiliência, mas que abre portas extraordinárias.

E é justamente aí que a ABA se torna um apoio estratégico. A Associação oferece uma rede sólida de profissionais no Brasil e no exterior, acesso a debates, conteúdos técnicos, eventos, grupos de estudo e iniciativas que aproximam o advogado brasileiro do cenário jurídico internacional.

A ABA é um espaço de acolhimento, formação e conexão e, para quem está começando essa jornada, fazer parte dessa comunidade pode acelerar o processo, ampliar horizontes e traze

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