Linha fina: Em meio ao barulho dos extremos, compreender a função do Supremo é um exercício de maturidade democrática.
Introdução
Em toda democracia, há instituições que funcionam como o freio quando a descida fica íngreme demais. O problema começa quando o freio passa a ser confundido com o obstáculo — e o motorista, em fúria, decide arrancá-lo. Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal passou a ocupar esse lugar desconfortável: criticado por todos os lados, aplaudido por uns, hostilizado por outros, quase sempre no centro do conflito político e emocional do país.
Crítica é democracia. Ataque é ruptura.
Criticar o Supremo não é apenas legítimo — é saudável. Nenhuma instituição republicana está acima do debate público. Decisões podem (e devem) ser questionadas; fundamentos podem ser discordados; votos podem ser analisados com rigor.
O problema surge quando a crítica deixa de ser técnica e se transforma em deslegitimação sistemática. Quando o debate jurídico dá lugar a xingamentos, teorias conspiratórias e discursos que tratam o Tribunal como inimigo do povo, o alvo já não é uma decisão específica — é a própria ideia de Estado de Direito.
Democracias não ruem de uma vez. Elas se desgastam quando a confiança nas instituições é corroída, tijolo por tijolo.
O que o STF faz — e o que ele não faz
Parte da radicalização decorre de uma confusão recorrente: atribuir ao Supremo responsabilidades que não lhe pertencem. O STF não governa, não legisla por vontade própria, não age por capricho político. Sua função central é interpretar a Constituição e proteger seus limites — inclusive quando isso desagrada maiorias momentâneas.
Em tempos normais, esse papel é quase invisível. Em tempos de crise, torna-se inevitavelmente visível — e incômodo. Afinal, alguém precisa dizer “não” quando o entusiasmo político ameaça atropelar direitos, regras e garantias básicas.
Gostemos ou não de decisões específicas, esse papel contramajoritário não é um defeito do Supremo. É sua razão de existir.
Radicalização: quando tudo vira torcida
A lógica das redes sociais transformou o debate institucional em arquibancada. Votos viram memes. Processos viram slogans. Ministros viram personagens — heróis ou vilões, conforme a conveniência do dia.
Nesse ambiente, nuance não viraliza. Explicação não compete com indignação. E o STF, por lidar com temas sensíveis e decisões complexas, vira combustível perfeito para narrativas simplificadas e inflamadas.
O risco é claro: quando a Justiça passa a ser avaliada apenas pelo aplauso da própria bolha, perde-se a capacidade de enxergá-la como árbitro — e não como jogador.
Instituições fortes não precisam ser idolatradas — precisam ser compreendidas
Defender o Supremo não significa concordar com tudo o que ele decide. Significa reconhecer que instituições sólidas são aquelas que resistem tanto ao aplauso cego quanto ao ódio irracional.
A crítica responsável fortalece. O ataque permanente enfraquece. E, no fim, não enfraquece “o STF” como abstração — enfraquece o sistema que protege todos nós, inclusive aqueles que hoje aplaudem sua erosão.
Conclusão
Em tempos de radicalização, o verdadeiro desafio não é escolher um lado da gritaria, mas elevar o nível da conversa. O Supremo Tribunal Federal não precisa ser poupado do debate público — precisa ser debatido com seriedade.
Democracias maduras não sobrevivem de paixões momentâneas, mas de instituições compreendidas, respeitadas e permanentemente vigiadas pela cidadania. Criticar, sim. Atacar, não. Entre esses dois verbos, está a linha que separa o debate republicano do risco institucional.