11 de agosto de 1979: o dia em que um sonho abriu um novo caminho

Foto: 11 de agosto de 1979. Registro da colação de grau do autor (arquivo pessoal)

Há datas que o calendário registra. E há datas que a vida registra dentro de nós. Para mim, 11 de agosto de 1979 pertence à segunda categoria.

Por Esdras Dantas de Souza

Amanhã, 11 de agosto, quando eu recordar aquela manhã distante de 1979, não estarei apenas celebrando a conclusão de um curso superior. Estarei voltando, em pensamento, a um daqueles momentos em que a vida parece fechar uma porta apenas para revelar que, logo adiante, existe um caminho inteiramente novo esperando por nós.

Naquele 11 de agosto de 1979, colei grau no curso de Direito da Faculdade de Direito do Distrito Federal, do CEUB, em Brasília.

Eu havia concluído uma etapa importante da minha vida.

Era bacharel em Direito.

Hoje, tantos anos depois, consigo compreender melhor a dimensão daquele momento. Mas o jovem que estava ali, recebendo o seu grau, não poderia imaginar tudo o que ainda viveria.

Não conhecia os capítulos seguintes.

Tinha apenas sonhos, esperança, vontade de trabalhar e uma profunda identificação com o Direito.

O Direito já fazia parte da minha vida

Minha relação com o mundo jurídico, entretanto, não havia começado na Faculdade.

Ela vinha de muito antes.

Aos 16 anos, eu já trabalhava no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Comecei como estagiário e, posteriormente, tornei-me servidor efetivo.

Naqueles corredores, fui crescendo profissionalmente e, talvez sem perceber, também fui sendo formado pela vida.

Fui escrevente auxiliar, escrevente juramentado e cheguei à função de diretor de secretaria da 3ª Vara de Família, Órfãos e Sucessões.

Ali conheci uma dimensão do Direito que nenhum livro seria capaz de ensinar sozinho.

Por uma Vara de Família passam processos, documentos e decisões. Mas passam, principalmente, pessoas.

Passam famílias.

Passam conflitos.

Passam separações, reconciliações, esperanças, perdas, patrimônios, histórias de filhos, pais, mães e tantas situações humanas que acabam chegando às mãos da Justiça.

Enquanto estudava as leis na Faculdade, eu convivia diariamente com as consequências que elas produziam na vida das pessoas.

Talvez tenha sido ali que comecei a compreender uma lição que me acompanharia durante toda a minha caminhada: o Direito somente encontra sua verdadeira grandeza quando consegue servir ao ser humano.

Chegava o dia da formatura

Depois vieram os anos de Faculdade.

As aulas, os professores, os livros, as provas, as conversas com os colegas, as dúvidas sobre o futuro e os sonhos próprios de quem está começando a construir a sua vida.

Até que chegou 11 de agosto de 1979.

O dia da colação de grau.

Imagino que todo estudante de Direito que chega a esse momento experimenta uma mistura difícil de explicar.

Há alegria pela conquista.

Há orgulho pelo caminho percorrido.

Há gratidão pelas pessoas que contribuíram para aquela realização.

Mas existe também uma pergunta silenciosa:

E agora?

O diploma certifica que uma etapa terminou. A vida, entretanto, começa imediatamente a perguntar o que faremos com aquilo que aprendemos.

Naquele dia, eu ainda era servidor do Tribunal de Justiça.

Tinha uma carreira construída dentro do Judiciário, responsabilidades profissionais e uma história que havia começado quando eu era praticamente um menino.

Poderia simplesmente continuar seguindo aquele caminho.

Mas alguma coisa começava a mudar dentro de mim.

Nascia um novo sonho

Depois da colação de grau, comecei a sentir uma vontade cada vez maior de exercer a advocacia.

Não era apenas uma decisão profissional.

Era como se o Direito, que até então eu conhecera principalmente pelos estudos e pela experiência dentro do Poder Judiciário, estivesse me convidando a conhecê-lo por outro lado.

O lado daquele que recebe uma pessoa em seu escritório.

Que escuta uma preocupação.

Que conhece um problema.

Que estuda uma solução.

Que assume uma causa.

Que fala em nome de alguém.

Que busca a Justiça para quem deposita nele sua confiança.

Começava a nascer dentro de mim o desejo de ser advogado.

Mas essa é outra história.

E merece ser contada em outro momento.

O que aquele jovem ainda não sabia

Quando olho hoje para aquele jovem bacharel de 1979, existe algo que me emociona particularmente.

Ele não sabia o que aconteceria depois.

Não sabia quais portas seriam abertas.

Não sabia quais dificuldades encontraria.

Não sabia quantas pessoas cruzariam o seu caminho.

Não sabia quantas vezes precisaria recomeçar, aprender, ensinar, liderar, ouvir, defender e servir.

E talvez seja justamente essa uma das coisas mais bonitas da juventude: caminhamos sem conhecer inteiramente o destino, sustentados pela esperança de que vale a pena seguir em frente.

Aquele jovem tinha diante de si muito mais perguntas do que respostas.

Mas tinha algo fundamental:

vontade de construir.

Quarenta e sete anos depois

Neste 11 de agosto de 2026, completam-se 47 anos daquela colação de grau.

O tempo passou.

Muita coisa aconteceu.

Mas, curiosamente, quando voltamos às grandes datas da nossa vida, o tempo parece diminuir a distância entre quem fomos e quem somos.

Ainda consigo olhar para aquele jovem.

E gostaria de lhe dizer:

Continue.

Continue acreditando.

Continue estudando.

Continue trabalhando.

Continue tratando as pessoas com respeito.

Continue aprendendo com os mais experientes e ajudando aqueles que vierem depois de você.

Nem todos os dias serão fáceis.

Algumas portas se fecharão.

Alguns projetos não acontecerão como você imaginou.

Você conhecerá vitórias e decepções.

Encontrará pessoas extraordinárias pelo caminho.

E descobrirá, muitas vezes, que os maiores resultados da vida não estão nos cargos que ocupamos ou nos títulos que acumulamos, mas nas pessoas que conseguimos ajudar e nas sementes que deixamos plantadas.

Aos jovens que hoje começam sua caminhada

Talvez esta lembrança tenha também alguma utilidade para quem está começando.

Especialmente para os jovens que, neste momento, terminam uma faculdade, iniciam uma profissão ou vivem a insegurança natural de não saber exatamente o que acontecerá amanhã.

Não tenham medo de não possuir todas as respostas.

Eu também não as tinha naquele 11 de agosto de 1979.

A vida não nos entrega previamente o roteiro completo da nossa história.

Ela nos entrega oportunidades.

Cabe a nós reconhecê-las, preparar-nos para elas e ter coragem de atravessar as portas quando elas se abrem.

Estudem.

Trabalhem.

Preservem seus valores.

Construam boas relações.

Sejam gratos a quem lhes estender a mão.

E, sobretudo, não permitam que as dificuldades do presente destruam os sonhos que podem construir o futuro.

Uma fotografia guardada na memória

Hoje, quando recordo minha colação de grau, não penso apenas no diploma recebido.

Penso em uma travessia.

De um lado estava o jovem servidor do Tribunal, que havia começado a trabalhar aos 16 anos e que conhecia de perto os corredores da Justiça.

Do outro começava a aparecer um horizonte que ainda não estava inteiramente definido.

Entre esses dois mundos estava aquele 11 de agosto.

Talvez seja por isso que essa data permaneça tão viva dentro de mim.

Foi o dia em que concluí uma etapa importante da minha formação.

Mas foi também o momento em que comecei a perceber que os sonhos, quando realizados, não necessariamente encerram uma caminhada.

Às vezes, fazem exatamente o contrário.

Abrem novos caminhos.

E aquele jovem bacharel ainda não sabia, mas um desses caminhos estava prestes a levá-lo à advocacia.

Essa, porém, será a história de um próximo capítulo.

Brasília, 11 de agosto de 2026


Esdras Dantas de Souza, hoje advogado, professor, escritor, especialista em Direito Público Interno. Foi advogado público vinculado à União, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Distrito Federal, Juiz Titular do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal, conselheiro federal e diretor da OAB Naciona e, conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Atualmente continua exercendo a advocacia, como sócio-diretor do escritório ESDRAS DANTAS DE SOUZA ADVOGADOS ASSOCIADOS – www.esdrasdantas.com – o magistério jurídico e a presidência da Associação Brasileira de Advogados.


Brasília, 11 de agosto de 2026

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